Giuliano Eriston “Politonia”: Recusa a monotonia com elegância, caos e vaidade
- circuitogeral

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Giuliano Eriston, em “Politonia”, chega com a pretensão sedutora de quem claramente acredita estar oferecendo uma pequena revolução estética ao mundo. E talvez esteja mesmo. Porque, convenhamos, ou você é muito talentoso ou perigosamente inconsequente para misturar maracatu, jazz, xote, R&B, MPB, francês, inglês, existencialismo, flerte, crítica política e melancolia afetiva dentro do mesmo álbum sem transformar tudo em um grande mosaico sonoro incoerente. Giuliano decide correr esse risco. E o mais irritante é perceber que, na maior parte do tempo, funciona.
Existe uma diferença brutal entre diversidade musical e indecisão artística. Grande parte da cena contemporânea parece incapaz de distinguir uma coisa da outra. Há artistas que confundem excesso de referência com profundidade, ecletismo com identidade, colagem estética com visão autoral. “Politonia”, felizmente, evita essa armadilha porque entende uma questão fundamental: mistura sem direção não produz complexidade; produz dispersão. Giuliano organiza o disco com um senso de percurso raro. As músicas mudam de temperatura, linguagem e atmosfera sem que o álbum perca inteiramente o eixo emocional. Isso exige um controle criativo difícil de sustentar, principalmente em um trabalho tão interessado em multiplicidade.
O próprio título já carrega uma ambição conceitual evidente. “Politonia” surge como oposição à monotonia musical, emocional, política e humana. A ideia poderia facilmente soar pretensiosa nas mãos erradas. Aqui, porém, ela encontra coerência no próprio comportamento do disco. Existe um desejo constante de escapar da apatia estética que domina parte da música brasileira recente. Nos últimos anos, consolidou-se uma espécie de minimalismo emocional permanente: vozes baixas, dores sussurradas, arranjos econômicos, vulnerabilidade cuidadosamente estetizada. Como se toda experiência afetiva contemporânea precisasse acontecer dentro de um apartamento silencioso com iluminação indireta e café superfaturado.
Giuliano reage a isso fazendo um álbum que se movimenta. Um disco que parece desconfortável demais para permanecer imóvel. As músicas respiram mudança de humor, oscilação afetiva, excesso de estímulo, tensão social e desejo de contato. O deslocamento do Ceará para o Rio de Janeiro atravessa o trabalho inteiro não apenas como mudança geográfica, mas como alteração perceptiva. Existe um artista menos recolhido do que em “Universo em Si”, mais disposto ao confronto, ao atrito e à observação externa. O olhar continua introspectivo, mas agora parece contaminado pela experiência urbana, pela circulação, pela instabilidade emocional provocada pela cidade.
“Lucidez” abre o álbum mergulhando em conflito interno, esperança e inquietação existencial. A faixa trabalha uma sensação de desgaste psicológico sem transformar sofrimento em espetáculo ornamental. Isso faz diferença. Há maturidade no modo como Giuliano evita aquele tipo de dramaticidade performática que costuma transformar qualquer crise emocional em monólogo grandioso sobre o vazio. A música sustenta tensão sem precisar implorar por profundidade o tempo inteiro. O desconforto aparece na estrutura da faixa, na interpretação e na maneira como a composição parece conter algo prestes a transbordar.
Em seguida, “Gosto do Gesto” e “Festa no Infinito” deslocam o disco para uma região mais luminosa, embora nunca completamente estável. O desejo aparece atravessado por ironia, insegurança e pequenas disputas de poder. Giuliano parece compreender que relações humanas raramente funcionam como narrativas românticas organizadas. Existe nervosismo nas aproximações, vaidade nas trocas afetivas e certa violência silenciosa nos jogos de sedução. As canções trabalham isso sem cair no cinismo excessivo nem no sentimentalismo publicitário que domina parte da música pop contemporânea.

Então surge “Corpo de Candiá”, provavelmente o momento em que “Politonia” abandona qualquer obrigação de parecer racional. A faixa soa como um ritual urbano atravessado por sensualidade, ancestralidade e transe. Existe algo hipnótico na maneira como palavras de matrizes indígenas e africanas circulam pela música sem parecerem mero recurso estético decorativo. A participação de Moreno Veloso amplia ainda mais essa atmosfera densa e levemente intoxicante. A música cria um ambiente muito específico: uma madrugada quente demais, conversa longa demais, gente sedutora demais tentando transformar desejo em experiência espiritual sofisticada.
O mais interessante é perceber como Giuliano transita por referências enormes sem virar caricatura de si mesmo. Porque existe uma linha muito fina entre artista plural e catálogo ambulante de referências culturais. Em muitos discos contemporâneos, a diversidade estética soa quase ansiosa, como se o artista precisasse provar repertório a cada faixa. “Politonia” evita isso graças à consistência vocal e ao controle atmosférico. Mesmo quando muda de direção, o álbum preserva uma assinatura emocional identificável.
“Borogodó” talvez seja uma das faixas mais inteligentes justamente porque recupera algo quase abandonado na música brasileira recente: humor elegante. A canção transforma frustração amorosa em vaidade debochada sem parecer infantil ou ressentida. Existe leveza na composição, mas uma leveza construída com precisão. Giuliano entende que ironia funciona melhor quando não tenta chamar atenção para si mesma o tempo inteiro.
Já “Não Pro Sim” e “Vem Me Relembrar” mergulham em dores afetivas mais densas sem transformar sofrimento em tese filosófica sobre abandono. O álbum acerta ao tratar saudade como experiência concreta, física, cotidiana. Existe melancolia nessas músicas, mas ela nunca assume aquele tom autocomiserativo típico de artistas fascinados demais pela própria tristeza. Giuliano trabalha vulnerabilidade com contenção suficiente para preservar humanidade nas composições.
Na reta final, “Teia” e “Waiting” introduzem o olhar político e social do disco com inteligência considerável. Felizmente, Giuliano compreende que crítica social não precisa soar como panfleto universitário revestido por arranjo sofisticado. O comentário político aparece incorporado à atmosfera das músicas, infiltrado no desconforto das composições, na ironia das imagens e na percepção de desgaste coletivo. O álbum fala sobre redes sociais, alienação, excesso de estímulo e esgotamento emocional contemporâneo sem transformar tudo em sermão sociológico para plateia já convertida.
Talvez esse seja o aspecto mais forte de “Politonia”: o álbum inteiro parece construído sobre a recusa da simplificação. Giuliano não quer soar perfeitamente coeso o tempo inteiro. Não quer reduzir a própria identidade a uma estética facilmente vendável em poucas palavras. Prefere a contradição, a sobreposição, o excesso e a instabilidade. Em alguns momentos, isso produz pequenas irregularidades no percurso do disco. Certas transições parecem mais intuitivas do que organicamente desenvolvidas. Ainda assim, o álbum ganha muito mais do que perde ao aceitar esse risco. Existe personalidade real nessa escolha.
Pedro Baby merece reconhecimento importante pela produção. O grande mérito aqui está em não tentar domesticar completamente o disco. Muitos produtores teriam reduzido as arestas do álbum em busca de acabamento impecável. Pedro Baby entende que “Politonia” precisa de textura, respiração e pequenas imperfeições para preservar vitalidade. O disco soa vivo justamente porque não tenta parecer excessivamente higienizado.
“Politonia” não funciona como música de fundo. O álbum exige presença do ouvinte porque está constantemente mudando de direção emocional. Em alguns momentos seduz; em outros provoca; às vezes ironiza; frequentemente se contradiz. Essa movimentação contínua impede conforto absoluto. O disco prefere atrito à passividade. E essa talvez seja sua qualidade mais rara dentro de um cenário musical cada vez mais interessado em produzir experiências sonoras perfeitamente consumíveis, previsíveis e facilmente transformáveis em identidade digital.
Giuliano Eriston cria uma obra ambiciosa, irregular em alguns pontos, excessiva em vários outros, mas quase sempre interessante. O álbum não parece preocupado em ser imediatamente assimilável. Prefere correr o risco do exagero a se acomodar na neutralidade elegante que domina parte da produção contemporânea. Quando erra, erra tentando expandir possibilidades. Quando acerta, produz momentos de enorme força estética.




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