Exposição: A Arte do Rio - O Desejo de Inventar
Há uma armadilha em toda exposição que se propõe a falar do Rio de Janeiro: a cidade chega antes da obra. Chega com a praia, o morro, a luz, o samba, a violência, a malandragem, a festa e a ruína. Chega acompanhada por um estoque monumental de imagens que há décadas nos convence de que conhecemos o lugar.
A Arte do Rio entra nesse território sabendo que representar o Rio significa lidar com uma mentira que contém uma parte considerável da verdade.
A cidade é, de fato, tudo aquilo que se diz dela. E também o seu avesso. Possui a paisagem espetacular que o turista compra e o cotidiano que quase nunca merece fotografia. Oferece a promessa de liberdade e conserva uma geometria precisa de espaços proibidos. Celebra a mistura enquanto reproduz formas persistentes de segregação. A cordialidade pode conviver com a brutalidade na mesma esquina, às vezes na mesma pessoa.
Ao reunir artistas que vivem e produzem no Rio, a mostra desloca a posição do espectador. A cidade deixa de ser objeto de contemplação e passa a ser uma experiência disputada por aqueles que a habitam. O resultado não é exatamente um retrato. É uma coleção de suspeitas sobre aquilo que costumamos chamar de Rio.
Uma exposição sobre uma cidade ganha força quando desiste de explicá-la. A Arte do Rio encontra sua maior força quando complica aquilo que parecia conhecido.
A mostra recusa a ideia de uma identidade carioca definitiva. Não existe um único carioca, assim como não existe um único Rio. O Rio da Zona Sul não coincide com o da Zona Norte. O Rio monumental não coincide com o cotidiano. A cidade vendida como experiência turística pode ser bastante diferente daquela vivida como destino.
Cada grupo social fabrica o seu Rio. Cada classe escolhe aquilo que merece ser visto. Cada geração reorganiza suas ruínas e atribui novos significados aos mesmos lugares. O artista acrescenta outra versão, outra deformação, outra mentira. E uma mentira bem construída pode se aproximar mais da verdade do que uma fotografia obediente.

Consumimos a cidade que criticamos. Celebramos suas contradições quando elas nos parecem sedutoras e nos indignamos quando a violência deixa de caber na moldura. O Rio desenvolveu uma extraordinária capacidade de transformar seus próprios conflitos em estética. A pobreza pode virar paisagem. A violência pode virar narrativa. A precariedade pode adquirir charme quando observada por quem não precisa suportá-la.
A arte não está protegida desse mecanismo. Pelo contrário. Pode transformar o que deveria provocar desconforto em algo elegantemente contemplável.
Por isso, o problema mais interessante diante da exposição não está apenas naquilo que os artistas dizem sobre o Rio. Está no desejo de quem olha e naquilo que esse olhar espera encontrar.
O Rio seduz porque é contraditório. Sua contradição, por sua vez, ajuda a alimentar a sedução. A cidade aprendeu a transformar conflitos em paisagem e desigualdades em atmosfera.
A Arte do Rio não precisa resolver essa equação. Sua inteligência está em mantê-la aberta.
Cada obra oferece uma entrada possível para a cidade, sem reivindicar o privilégio de encerrá-la. O Rio permanece inconcluso, disputado, excessivo. Nenhuma representação consegue dar conta dele porque nenhuma representação é exterior às relações de poder, aos afetos e aos desejos que constituem aquilo que chamamos de cidade.
Desejo de possuir a cidade, de representá-la, de pertencer a ela, de escapar dela, de reinventá-la. Desejo, sobretudo, de acreditar que existe um Rio verdadeiro escondido atrás das imagens, esperando alguém suficientemente autorizado para revelá-lo.
A Arte do Rio ganha densidade justamente quando deixa de oferecer uma cidade para ser reconhecida e expõe o nosso desejo de transformá-la em imagem.
Exposição: A Arte do Rio - O Desejo de Inventar




Comentários