top of page

Exposição "O Que Levamos Dentro dos Olhos": Não confie em tudo o que você sente ao olhar

há 4 minutos
2 min de leitura

Com curadoria de Bruno Castaing, a mostra parte de uma constatação inconveniente: ninguém sai de uma experiência levando apenas a bagagem de mão. Carregamos paisagens, afetos, perdas e lembranças que sobrevivem até à nossa capacidade de explicar por que continuam conosco. A memória, funcionária sem supervisão, decide o que arquivar, o que apagar e o que reapresentar justamente quando julgávamos ter encerrado o assunto.


A exposição convida o visitante a desconfiar dos próprios olhos. Olhar é fácil, ver dá trabalho. Uma paisagem pode parecer apenas bonita até que o tempo a transforme na casa da infância, no cenário de um amor perdido ou no endereço de uma felicidade que, na ocasião, não parecia grande coisa. O olho registra, a vida faz a montagem e a memória, editora pouco confiável, altera o roteiro sem consultar os envolvidos.


Exposição "O Que Levamos Dentro dos Olhos"

As obras se oferecem como pontos de encontro entre quem as produz e quem as observa. A proposta é interessante, embora a experiência estética não venha com garantia de profundidade. Nem toda imagem provoca uma revelação, assim como nem toda lembrança merece trilha sonora. O mérito está em abrir espaço para que cada visitante reconheça, nas imagens alheias, alguma coisa de sua própria história, sem a obrigação de sair da galeria convertido em especialista na própria existência.


O olhar, contudo, não se forma no vácuo. Cultura, época e posição social influenciam o que aprendemos a ver e, principalmente, aquilo que deixamos de perceber. Algumas imagens permanecem porque nos foram apresentadas inúmeras vezes; outras foram excluídas do repertório por conveniência, preconceito ou simples falta de interesse. O esquecimento pode ser involuntário, mas certas ausências têm responsáveis. Nem tudo o que não lembramos desapareceu por conta própria.


Ao aproximar memória, percepção e experiência, a mostra sugere que olhar também implica assumir alguma responsabilidade pelo que se vê. Fotografias mentais não são provas incontestáveis, lembranças não constituem arquivos imparciais e a nostalgia costuma trabalhar com uma seleção bastante generosa dos fatos. Resta ao visitante examinar o próprio acervo, inclusive as peças que preferia manter fora de exposição. Afinal, a vida já nos cobra ingressos suficientes; seria razoável, ao menos, não pagar novamente para acreditar em todas as versões que contamos a nós mesmos.


Exposição "O Que Levamos Dentro dos Olhos": Não confie em tudo o que você sente ao olhar

Comentários


bottom of page