Exposição: “Pintar é Preciso” - O que sustenta a pintura de Adriano Mangiavacchi
- circuitogeral

- há 2 dias
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“Pintar é Preciso” poderia facilmente sucumbir a um dos vícios mais recorrentes do sistema das artes: transformar a biografia do artista em argumento estético. Diante de um criador prestes a completar 85 anos, com uma trajetória consolidada entre Itália e Brasil e uma nova série de trabalhos apresentada em uma galeria reconhecida do circuito carioca, seria previsível encontrar uma exposição sustentada pela celebração da longevidade. O material de divulgação, aliás, oferece todos os elementos para essa leitura: permanência, vitalidade, experiência acumulada e uma frase de efeito suficientemente elegante para funcionar como síntese existencial: “Pintar é preciso e viver também”.
O aspecto mais relevante do conjunto não está na idade de Adriano Mangiavacchi, mas na recusa em transformar essa condição em tema central. Em vez de apresentar a continuidade da produção como mérito autônomo, o artista concentra suas energias na própria linguagem pictórica. As obras não pedem indulgência crítica nem reivindicam respeito em razão da trajetória. Exigem ser avaliadas pelos resultados que alcançam.
A incorporação da aquarela ao centro de sua pesquisa, desde 2023, ajuda a compreender esse momento. Trata-se de uma técnica que opera simultaneamente por controle e instabilidade. A água impõe desvios, altera trajetórias e produz acidentes que escapam ao domínio absoluto do artista. Ao transportar parte dessa lógica para a pintura em tela, Mangiavacchi introduz uma condição de risco em um meio tradicionalmente associado ao controle da superfície.
Essa característica adquire importância particular em um momento cultural dominado pela velocidade da percepção. Grande parte das imagens produzidas atualmente busca reconhecimento instantâneo. A pintura de Mangiavacchi segue caminho distinto. Seu interesse não reside na comunicação imediata, mas na permanência do olhar. Quanto mais tempo o observador dedica às obras, mais evidentes se tornam as relações internas entre cor, luz, transparência e profundidade.

A paisagem carioca, frequentemente apontada como uma de suas fontes de inspiração, comparece de forma indireta. Não aparece como representação identificável nem como repertório iconográfico. O Rio de Janeiro surge absorvido pelo processo pictórico, transformado em luminosidade, ritmo cromático e memória visual. O artista não procura reproduzir a cidade; procura incorporar à pintura os efeitos produzidos por décadas de convivência com ela.
Também merece atenção a maneira como o artista trabalha a relação entre intenção e acaso. Muitos pintores recorrem a esse vocabulário para descrever seus processos criativos, mas poucos conseguem efetivamente incorporá-lo à construção da obra. Em “Pintar é Preciso”, percebe-se uma negociação constante entre planejamento e imprevisibilidade. As composições avançam por decisões conscientes, sem eliminar os acontecimentos produzidos pelo próprio comportamento dos materiais.
Essa tensão confere vitalidade ao conjunto. Não se trata da vitalidade frequentemente celebrada pelos discursos institucionais quando se referem à idade do artista, mas de uma vitalidade propriamente pictórica, perceptível na capacidade das obras de permanecerem abertas, móveis e sujeitas a novas leituras.
Por essa razão, “Pintar é Preciso” encontra seus melhores momentos quando abandona qualquer expectativa comemorativa e concentra suas forças naquilo que efetivamente apresenta: um conjunto de obras que ainda procura expandir seus próprios limites, sem recorrer à nostalgia, ao espetáculo ou à autopromoção biográfica como estratégia de legitimação.
Serviço:
“Pintar é Preciso” – Adriano Mangiavacchi apresenta pinturas em acrílica e aquarelas inéditas
Curadoria: Vanda Klabin
Visitação: até 6 de junho de 2026
Funcionamento: de segunda a sexta, das 11h às 19h; aos sábados, das 11h às 17h
Local: Galeria Patricia Costa
Endereço: Av. Atlântica, 4.240/lojas 224 e 225 – Copacabana – RJ
Classificação livre
Entrada gratuita
Exposição: “Pintar é Preciso” - O que sustenta a pintura de Adriano Mangiavacchi




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