Fábio Rizental “Três Rosas Negras” - Entre a reverência e a reinvenção: o desafio de revisitar três gigantes da música brasileira
“Três Rosas Negras”, espetáculo concebido pelo guitarrista, compositor e cantor Fábio Rizental, parte de um repertório consagrado da música brasileira para investigar as possibilidades de permanência e transformação da obra artística. Ao aproximar Milton Nascimento, Djavan e Luiz Melodia, o projeto estabelece um diálogo entre compositores cujas trajetórias, embora singulares, convergem na elaboração de uma linguagem musical capaz de traduzir conflitos íntimos, tensões sociais e ambiguidades da experiência humana. A proposta, apresentada no Acaso Cultural, em Botafogo, no dia 16 de outubro, às 20h, encontra sua justificativa estética na tentativa de deslocar essas canções do território da consagração para o campo da experimentação.
O mérito conceitual da iniciativa reside na compreensão de que a permanência de uma obra não depende da reprodução indefinida de suas formas originais. Canções incorporadas à memória coletiva correm o risco de se tornarem objetos de reverência, protegidos por hábitos de escuta que limitam a percepção de suas possibilidades expressivas. Ao submetê-las a uma abordagem contemporânea, Fábio Rizental propõe rever o familiar sem desconsiderar os elementos que lhe conferiram relevância. A operação exige discernimento: reinterpretar um repertório dessa magnitude pressupõe reconhecer suas estruturas, compreender suas particularidades e identificar os espaços em que a intervenção pode produzir sentido.
A guitarra ocupa posição central nessa investigação. Entre o jazz, o rock e a improvisação, a linguagem instrumental de Rizental oferece condições para reorganizar harmonias, alterar dinâmicas e explorar tensões que nem sempre se apresentam de maneira evidente nas versões conhecidas. O encontro com Alexandre Berreldi, no contrabaixo, e Léo Bandeira, na bateria, amplia o campo de possibilidades rítmicas e tímbricas, favorecendo uma leitura coletiva das composições. O resultado artístico, contudo, dependerá da capacidade do trio de estabelecer uma relação orgânica entre virtuosismo, elaboração e sensibilidade. A sofisticação técnica só adquire relevância estética quando deixa de funcionar como demonstração de competência e passa a responder às exigências internas da música.

O repertório anunciado, com títulos como “Pérola Negra”, “Juventude Transviada”, “Fé Cega, Faca Amolada”, “Para Lennon e McCartney”, “Nuvem Cigana”, “Lilás”, “Azul” e “Açaí”, reúne obras que exigem abordagens distintas. A densidade poética de Luiz Melodia, a arquitetura melódica de Milton Nascimento e a precisão harmônica de Djavan não admitem um tratamento uniforme sem o risco de apagar suas diferenças. A coerência do espetáculo dependerá, portanto, da percepção dessas identidades e da escolha de procedimentos interpretativos compatíveis com cada composição. A novidade, por si só, não assegura profundidade. É a inteligência das escolhas musicais que poderá converter a releitura em conhecimento sensível.
As participações de Ithamara Koorax e Chady introduzem outras camadas de interlocução. Associada à pesquisa vocal e à tradição do jazz, Ithamara acrescenta uma presença artística cuja expressividade pode favorecer novas inflexões interpretativas. Chady, ligado ao pop e ao rock, aproxima o projeto de outras referências geracionais e amplia seu horizonte estilístico. A diversidade dos convidados será particularmente produtiva se as participações ultrapassarem a função de aparições especiais e se integrarem à concepção musical do espetáculo. O diálogo entre trajetórias distintas requer mais do que a coexistência de nomes: exige escuta recíproca, elaboração de contrastes e uma direção capaz de conferir unidade às diferenças.
“Três Rosas Negras” apresenta, assim, uma proposta que merece ser avaliada pela consistência de sua realização, pela qualidade das interpretações e pela capacidade de articular repertório, improvisação e identidade artística. Seu interesse ultrapassa a reunião de três compositores fundamentais: está na possibilidade de demonstrar que a memória musical não precisa ser conservada sob imobilidade para continuar reconhecível.
Serviço:
Quando: 16 de outubro, sexta-feira, às 20h
Ingressos: entre R$ 55 e R$ 200
Fábio Rizental “Três Rosas Negras” - Entre a reverência e a reinvenção: o desafio de revisitar três gigantes da música brasileira





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