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Hora do Recreio: quando temas urgentes não bastam para sustentar um documentário

Em vez de acompanhar jovens pensando em voz alta, assistimos a apresentações muito bem organizadas sobre temas urgentes

Hora do Recreio

Hora do Recreio: quando temas urgentes não bastam para sustentar um documentário


Tem algo curioso em Hora do Recreio: ele parte de uma premissa que, no papel, parece praticamente impossível de dar errado. Jovens da rede pública do Rio discutindo gênero, raça, sexualidade e violência contra a mulher em um país em que o noticiário diário parece competir para ver qual tragédia social vai chocar mais. Em tese, basta ligar a câmera e deixar essas pessoas falarem. Pronto: o cinema já está ali.


E, de fato, existe algo genuinamente bonito na proposta de abrir espaço para essas vozes. São adolescentes de realidades periféricas que raramente encontram microfone, palco ou câmera interessados em ouvi-los. Quando aparecem, normalmente surgem como estatística ou problema social. Por isso, vê-los debatendo, se posicionando e refletindo sobre o mundo cria uma expectativa real de potência.


Conforme o filme avança, porém, surge uma sensação estranha. Em vez de acompanhar jovens pensando em voz alta, assistimos a apresentações muito bem organizadas sobre temas urgentes. Tudo é correto, alinhado e consciente demais. Não porque esses estudantes não tenham pensamento crítico ou experiências reais para compartilhar, mas porque a forma como essas falas surgem diante da câmera soa curiosamente ensaiada, como se cada frase estivesse tentando preencher um tópico de uma pauta invisível.

Isso enfraquece justamente aquilo que costuma tornar documentários tão interessantes. Quando as pessoas hesitam, se contradizem, dizem algo inesperado ou revelam algo íntimo, o filme ganha vida. Aqui, muitas falas parecem cumprir um checklist temático quase burocrático: transfobia, racismo, a solidão da mulher negra. São temas essenciais, mas apresentados de um modo que frequentemente soa mais protocolar do que vivo.


A própria estrutura do filme reforça essa sensação de dispersão. A narrativa alterna conversas entre os alunos com momentos encenados e, mais adiante, com a montagem teatral de Clara dos Anjos, de Lima Barreto. A ideia de conectar uma obra literária do início do século XX com as questões enfrentadas por esses jovens hoje é excelente, talvez a melhor sacada do filme. Paradoxalmente, é justamente nesse momento teatral que o longa finalmente encontra forma: ali as ideias se condensam, os temas se encontram e o discurso ganha uma dimensão dramática mais clara.


O problema é que o filme tenta abraçar muitos assuntos ao mesmo tempo sem decidir qual deles quer realmente aprofundar. Em 83 minutos, a narrativa acumula intenções, dispositivos e recortes temáticos até parecer um pouco inchada. Não por falta de relevância, pelo contrário, mas por falta de foco.


No fim, Hora do Recreio é daqueles filmes que têm algo importante a dizer, mas parecem mais preocupados em garantir que todos os temas apareçam do que em permitir que as pessoas diante da câmera existam plenamente. E, ironicamente, quando o cinema deixa de tentar controlar tanto e simplesmente observa, é justamente aí que costumam surgir seus momentos mais fortes. Aqui eles até aparecem, mas deixam a sensação de que poderiam ter sido muito mais frequentes.

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