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Wem - “Posto, Logo Existo”: álbum sobre existir nas redes sociais

A reflexão vem bem comportada

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Wem - “Posto, Logo Existo”: álbum sobre existir nas redes sociais


Existem discos que parecem nascer depois de uma longa crise criativa. Outros parecem nascer depois de uma boa conversa de bar sobre redes sociais. “Posto, Logo Existo”, de Wem, tem um pouco desse espírito: o álbum já chega sabendo que quer discutir Instagram, ansiedade e a estranha sensação de existir apenas quando alguém curte.


O problema, ou o mérito, dependendo do grau de tolerância do ouvinte ao conceito, é que a reflexão vem bem comportada. É como aquele amigo que critica o capitalismo tomando um latte de 18 reais: está certo, mas também está confortável demais na situação.


O título do disco é, sem dúvida, seu grande golpe de inteligência. A troca do “penso” de René Descartes pelo “posto” funciona de imediato. É espirituoso, cabe em um tweet, em uma camiseta e provavelmente em um workshop de branding.


Em termos de mercado cultural, é perfeito. Cabe em uma playlist, em uma bio de artista e em uma legenda reflexiva no Instagram, que, ironicamente, é exatamente o ambiente que o disco está tentando problematizar.

O risco, porém, é que o conceito seja tão claro que já chegue meio resolvido. É como um meme filosófico: você ri, concorda, compartilha e segue a vida.


A ideia de que “existimos através das redes sociais” não é exatamente inédita. Ela já foi desmontada com uma dose maior de delírio e desespero por Bo Burnham no especial Bo Burnham: Inside, em que a angústia digital se transforma praticamente em um colapso artístico filmado.


Wem prefere outro caminho: a observação calma, quase terapêutica. Ele não surta com a internet. Ele suspira sobre ela.


Faixas como “Tudo atrás da tela” e “A felicidade veio pro jantar” revelam um compositor sensível ao cotidiano emocional da classe média conectada. Há empatia ali, e isso é mérito real.


Mas, às vezes, a sensação é de que estamos ouvindo uma sessão de terapia coletiva com trilha sonora suave.


As metáforas são claras: o jantar fotografado, a felicidade performática, a vida transformada em vitrine.


Tudo isso é reconhecível. Talvez até demais. Inclusive para o ouvinte que escuta o disco enquanto fotografa o próprio café.


O tema não é o problema. O limite aparece quando ele raramente explode em imagens novas. Falta aquele momento em que a letra deixa de comentar o mundo e passa a revelar algo que o ouvinte não sabia que sentia.


Aqui, muitas vezes, a canção funciona como legenda de Instagram bem escrita.


Como multi-instrumentista, Wem demonstra competência clara. Os arranjos transitam entre minimalismo acústico e pequenas expansões sonoras com bom gosto.


Ele se insere confortavelmente em uma linhagem da MPB contemporânea que inclui Marcelo Jeneci, Tiê e Roberta Campos.


O problema é que essa estética, um folk-pop introspectivo de arranjos orgânicos, voz suave e letras existenciais, virou praticamente o “modo avião” da música independente brasileira: confortável, bonito e muito difícil de causar turbulência.


O disco é elegante.


Mas elegante, às vezes, é apenas um jeito educado de dizer que nada saiu muito do lugar.


Há ainda um detalhe curioso.


O álbum critica a lógica da vida algorítmica enquanto se adapta perfeitamente a ela: 12 faixas, 33 minutos, clima uniforme e músicas que fluem bem em playlists de “calma”, “reflexão”, “fim de tarde” ou “vou pensar na vida olhando pela janela”.


Ou seja, é um disco sobre escapar do algoritmo que funciona muito bem dentro do algoritmo.


Não é necessariamente hipocrisia.É apenas o capitalismo cultural funcionando direitinho.


Nada em “Posto, Logo Existo” parece errado.


Mas também quase nada parece perigoso.


Quando artistas realmente capturam o espírito de uma era, eles costumam bagunçar alguma coisa no processo. Pense em David Bowie em Blackstar, ou em Radiohead desmontando a ansiedade tecnológica em OK Computer.


Esses discos não apenas comentavam o mundo. Eles pareciam desconfortáveis dentro dele.


Wem, por enquanto, observa o caos sentado em um sofá muito confortável.


“Posto, Logo Existo” é um disco bem feito, sensível e honesto.


É uma companhia agradável para quem quer pensar um pouco sobre a vida digital sem entrar em crise existencial completa.


Ele organiza o barulho do presente.


Só não chega a mudar o volume.


No panorama da canção brasileira atual, Wem confirma seu lugar como um artesão cuidadoso da introspecção contemporânea.


Ainda não como o artista que vai desmontar o feed inteiro.


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