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O Pardal no Peito: a poética urbana da exposição de Paulo Amorim

Não tem glamour, mas possui uma espécie de resiliência urbana

Pardal

O Pardal no Peito: a poética urbana da exposição de Paulo Amorim


A exposição “O Pardal no Peito”, de Paulo Amorim, poderia começar como aquelas histórias que parecem profundas… até você perceber que, no fundo, há um passarinho meio perdido dentro do seu tórax.


E não é qualquer pássaro. Não é águia, não é falcão, nem aquele símbolo majestoso que aparece em bandeiras de império ou em logotipos de banco. É um pardal.


O pardal é o equivalente ornitológico da pessoa que diz “vou só passar rapidinho” e acaba ficando três horas. Está em todo lugar, mas ninguém lembra de convidá-lo para o jantar.


Talvez seja justamente aí que a exposição encontra sua força, na escolha de algo absolutamente comum. Trata-se da ave do cidadão médio. Se existisse um pássaro que paga boleto e esquece a senha do aplicativo do banco, seria esse.


Quando Paulo Amorim coloca esse pardal no peito, a imagem ganha outra camada de sentido. Não é apenas metáfora poética. É quase um diagnóstico emocional. Todos nós carregamos um pequeno animal urbano dentro do peito, batendo asas em momentos inesperados. Às vezes quando a vida aperta. Às vezes quando o Pix cai. Às vezes quando você lembra de uma mensagem que mandou às duas da manhã.


Esse pardal interno não é dramático. Não faz discurso. Ele apenas permanece ali.


A exposição sugere que viver é, em grande parte, administrar esse pássaro íntimo. Há dias em que ele quer voar. Há dias em que prefere se esconder. E há dias em que está claramente batendo nas paredes do peito porque você decidiu tomar quatro cafés e discutir política no grupo da família.


Também existe uma dimensão social interessante nessa escolha. Diferente das aves nobres da arte clássica, como cisnes, águias ou pavões, o pardal é democrático. Vive entre prédios, come migalhas e se adapta ao que encontra. Não tem glamour, mas possui uma espécie de resiliência urbana. É praticamente um carioca com penas.


Nesse sentido, Paulo Amorim parece sugerir algo simples e bonito ao mesmo tempo. Talvez a poesia da vida não esteja nos grandes voos, mas nessa persistência cotidiana. Nesse pequeno bater de asas que continua acontecendo mesmo quando ninguém está olhando.


No fim, “O Pardal no Peito” não oferece respostas grandiosas. Apenas lembra que algo dentro de nós continua batendo asas.


Por Paulo Sales


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