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Justiça Artificial: quando o algoritmo veste o arquétipo do juiz

Reviravoltas artificiais e clichês do gênero policial

Justiça Artificial: quando o algoritmo veste o arquétipo do juiz


Justiça Artificial, de Timur Bekmambetov, apresenta-se como um thriller futurista eficiente, mas revela algo mais inquietante sob sua superfície. O filme funciona como um retrato da facilidade com que o ser humano abdica de sua autonomia emocional e moral em favor de sistemas que prometem ordem, segurança e absolvição. Ao fazer isso, transforma a tecnologia não apenas em ferramenta, mas em autoridade simbólica.


A tensão narrativa não nasce da lógica investigativa tradicional, e sim do uso deliberado de arquétipos psicológicos. Raven, interpretado por Chris Pratt, representa o arquétipo do indivíduo fragmentado, consumido pela culpa e em busca de redenção. Já a juíza de inteligência artificial, vivida por Rebecca Ferguson, ocupa o lugar do superego institucionalizado: uma instância fria, onisciente e aparentemente incorruptível, que não escuta, não pondera e não hesita. Sua função não é dialogar, mas sentenciar.


É nesse ponto que Justiça Artificial se aproxima da psicologia sombria, ainda que de maneira intuitiva. O filme explora um medo profundamente humano: o de ser julgado por uma autoridade que não admite falhas nem interpretações alternativas. Pouco importa o que Raven sente ou recorda. O sistema se impõe como detentor da verdade, criando a sensação de que qualquer tentativa de defesa é irrelevante.


Consequentemente, a juíza artificial não precisa ser persuasiva. Basta que seja definitiva. Assim como ocorre em mecanismos reais de controle simbólico, a promessa de imparcialidade substitui a empatia, enquanto a rapidez das decisões elimina o espaço para a dúvida. O espectador, assim como o protagonista, é conduzido a aceitar o veredicto não por convicção, mas por exaustão psicológica. Se o sistema decidiu, pressupõe-se que haja um motivo.


No entanto, o filme recua justamente quando poderia aprofundar essa reflexão. Em vez de explorar de forma mais incisiva a dependência emocional de sistemas supostamente infalíveis, algo que dialogaria com carências contemporâneas como a necessidade de pertencimento, validação e segurança, Justiça Artificial opta por reviravoltas artificiais e clichês do gênero policial. A narrativa torna-se excessivamente ruidosa, sacrificando a sutileza que daria peso real ao desconforto proposto.


Há, contudo, uma versão potencialmente mais perturbadora dessa história. Nela, a inteligência artificial não falha por limitações técnicas, mas por funcionar perfeitamente dentro de uma lógica desumanizada. Justamente por isso, seria aterradora. Tal abordagem obrigaria o espectador a encarar uma verdade incômoda: não é a tecnologia que exerce domínio absoluto, mas a disposição psicológica humana de obedecer a sistemas que prometem livrá-lo da angústia de decidir.


Ao final, Justiça Artificial permanece divertido porque toca nessas tensões sem se comprometer plenamente com elas. Provoca inquietação, mas evita a transformação. Hipnotiza o olhar, mas não exige ruptura. Essa hesitação talvez seja sua maior limitação e, ao mesmo tempo, o motivo de seu apelo. O filme oferece entretenimento eficiente enquanto revela, ainda que superficialmente, o desejo contemporâneo de delegar responsabilidades a máquinas que possam trabalhar em nosso lugar.


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