O que é Arte? Com a palavra, o artista de Alvaro Tallarico: Afinal, quem entendeu?
Por Paulo Sales
Arte tem um talento particular para transformar uma experiência simples em um teste de inteligência. Uma pintura pode ocupar uma parede inteira e, ainda assim, deixar o visitante diante dela com a sensação desagradável de que todos receberam o manual de instruções, menos ele. Então surgem as explicações: experiência, corpo, percepção, ressignificação. Palavras suficientemente solenes para conferir profundidade ao que ninguém ousa admitir que não entendeu. O público observa, concorda com uma expressão grave e segue adiante, carregando a suspeita de que talvez tenha acabado de testemunhar algo extraordinário ou apenas uma parede muito bem iluminada. A dúvida costuma ser a parte mais honesta da experiência. Alguns saem convencidos de que testemunharam uma experiência estética. Outros compram o catálogo, provavelmente para levar para casa uma lembrança física da própria confusão.
Em O que é Arte? Com a palavra, o artista, Alvaro Tallarico entra nesse território pantanoso sem a ambição de cometer o pequeno assassinato intelectual de encontrar uma definição definitiva para a arte. O livro nasceu de uma pesquisa acadêmica realizada na Especialização em Jornalismo Cultural da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e chega ao leitor com uma proposta clara: investigar a arte a partir da voz de quem a produz, sem transformar a reflexão em um desfile de conceitos destinado a intimidar quem ousou abrir o livro sem um dicionário de estética por perto. Tallarico não tenta resolver a pergunta com uma definição definitiva nem esconder sua complexidade atrás de uma linguagem excessivamente acadêmica. Prefere reunir diferentes perspectivas e deixar que elas revelem, inclusive, suas contradições.

Ouvir os artistas parece uma escolha óbvia, mas nem sempre é assim que o debate sobre arte funciona. Com frequência, críticos, teóricos, movimentos e escolas acabam ocupando tanto espaço na interpretação de uma obra que a voz de quem a criou fica em segundo plano. O artista passa a ser explicado pelos outros, como se sua própria experiência de criação fosse apenas um detalhe diante das teorias construídas ao redor dela. Tallarico parte na direção contrária. Ao colocar os artistas no centro da discussão, reúne diferentes experiências, percepções e concepções sobre a criação e permite que a pergunta sobre o que é arte seja examinada por quem vive esse processo de maneira direta.
Essa diversidade de perspectivas é uma das principais qualidades do livro. Ao reunir diferentes concepções de arte, Tallarico evita transformar o tema em uma definição fechada, capaz de determinar de uma vez por todas o que pode ou não ser considerado artístico. As entrevistas mostram justamente o contrário: a ideia de arte muda conforme a experiência, a formação, a visão de mundo e o processo criativo de cada artista. Em vez de encerrar a discussão, o livro amplia suas possibilidades e mostra como uma mesma pergunta pode produzir respostas muito diferentes. É uma escolha particularmente saudável para um assunto que costuma atrair especialistas dispostos a anunciar sua definição definitiva com a tranquilidade de quem acaba de descobrir a verdade escondida dentro de uma moldura.





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