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Os Farofeiros 3: a franquia precisava de férias, não de uma sequência

há 10 minutos
4 min de leitura

POR PAULO SALES


A franquia Os Farofeiros chega ao terceiro filme com uma ambição geográfica considerável: trocar os destinos nacionais pelo Caribe. O problema é que seus personagens continuam sendo exatamente os mesmos, com os mesmos defeitos, as mesmas limitações e a mesma capacidade de transformar qualquer oportunidade de descanso em um episódio de calamidade pública. A novidade, portanto, está no endereço, não propriamente na proposta. Desta vez, Rocha resolve bancar o casamento da filha em uma ilha paradisíaca, convida os amigos e suas famílias para uma temporada de luxo e, quando todos chegam ao destino, descobrem que foram enganados. O resort prometido virou o hotel mais barato da América Latina. O Caribe ganhou uma nova atração turística: a irresponsabilidade alheia.


A premissa tem potencial cômico porque trabalha com uma situação bastante reconhecível: a distância entre a imagem que alguém deseja projetar e a realidade que consegue pagar. Rocha quer oferecer uma celebração sofisticada, mas sua estratégia para alcançar esse objetivo envolve esconder informações de pessoas que estão prestes a compartilhar uma viagem internacional. É uma espécie de empreendedorismo da mentira, no qual o prejuízo é coletivo e a satisfação pessoal depende de ninguém fazer perguntas antes do embarque. O roteiro encontra nessa contradição um ponto de partida interessante, embora a situação também exponha uma limitação recorrente da franquia: seus conflitos frequentemente dependem de personagens tomando decisões tão absurdas que a própria realidade parece pedir para sair de cena.


A mudança de cenário oferece um contraste visual evidente. Praias de águas azul-turquesa, paisagens tropicais e a promessa de férias inesquecíveis compõem um cartão-postal que entra em conflito direto com a experiência dos protagonistas. O filme parece interessado em explorar essa oposição entre o paraíso anunciado e o inferno administrativo, financeiro e comportamental que acompanha o grupo. O problema é que uma paisagem bonita não produz automaticamente uma comédia melhor. O Caribe pode render imagens agradáveis, mas não resolve a questão fundamental de uma sequência: o que ainda existe de novo para contar depois de duas aventuras anteriores?


O elenco conhece bem o terreno em que está pisando. Maurício Manfrini, Charles Paraventi, Antônio Fragoso e Nilton Bicudo retomam personagens cuja dinâmica já está estabelecida, enquanto Cacau Protásio e Danielle Winits ajudam a movimentar as relações familiares e os conflitos. Existe familiaridade na maneira como esses intérpretes trabalham os constrangimentos, as reações exageradas e as disputas cotidianas. Essa intimidade com os personagens favorece o ritmo das situações, mas também produz um efeito colateral: em determinados momentos, a impressão é de que estamos assistindo a uma reunião de velhos conhecidos repetindo histórias que já ouvimos, agora com passagens aéreas internacionais.


A comédia aposta bastante no exagero, no constrangimento e na sucessão de problemas. São mecanismos legítimos dentro de uma produção popular, mas precisam de alguma progressão para não virar uma coleção de gritaria, caretas e desentendimentos previsíveis. Quando o humor depende excessivamente de alguém perder a paciência, outro personagem fazer uma besteira e um terceiro reagir de maneira desproporcional, a surpresa começa a trabalhar em regime de meio expediente. O espectador entende rapidamente as regras daquele universo. A questão passa a ser descobrir se o filme conseguirá subvertê-las ou se simplesmente continuará apertando os mesmos botões até os créditos finais.


Os Farofeiros 3

Existe ainda uma dimensão social interessante na história. A tentativa de Rocha de proporcionar uma festa luxuosa para a filha revela a preocupação com status, reconhecimento e aparência. É uma situação que conversa diretamente com uma sociedade na qual parecer bem-sucedido frequentemente recebe mais atenção do que conseguir pagar a própria conta. O sujeito quer oferecer uma experiência de milionário, mas organiza tudo com a responsabilidade financeira de alguém que acabou de descobrir o limite do cartão. A ironia funciona porque a situação é exagerada sem ser completamente estranha à realidade. O desejo de impressionar os outros continua sendo um dos investimentos mais caros e menos rentáveis da humanidade.


O terceiro capítulo também precisa lidar com o desgaste natural de uma franquia que já conhece seus próprios atalhos. A familiaridade pode ser agradável, mas não deve servir como autorização para dispensar criatividade. Conhecer os personagens não significa que o público precise aceitar qualquer repetição como se fosse um reencontro emocionante. Existe uma diferença entre preservar uma identidade e transformar essa identidade em uma desculpa para não experimentar. O filme parece confortável com seu repertório, embora essa segurança nem sempre se converta em inventividade.


Ainda assim, Os Farofeiros 3 compreende o tipo de entretenimento que pretende oferecer. Não está interessado em construir uma sofisticada reflexão sobre relações humanas, tampouco em disputar espaço com a comédia de observação mais elaborada. 


O filme oferece entretenimento descomplicado, embora não consiga escapar inteiramente da sensação de repetição.


No Caribe, o mar continua azul, as praias continuam paradisíacas e o hotel continua sendo uma decepção. Para os personagens, a experiência é uma tragédia turística. Para o espectador, a pergunta é outra: quantas vezes ainda será possível assistir à mesma turma se metendo nas mesmas roubadas antes que a piada perca a validade? Os Farofeiros 3 entrega aquilo que seu público provavelmente procura, mas sua terceira viagem deixa uma constatação menos paradisíaca: mudar o destino é fácil; encontrar um novo caminho para fazer rir é que continua sendo o verdadeiro desafio.


Os Farofeiros 3: a franquia precisava de férias, não de uma sequência


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