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Para Sempre Medo: Terror psicológico que promete mais do que entrega

O problema não está na familiaridade da fórmula, mas na maneira como o filme a utiliza sem conseguir transcendê-la

Para Sempre Medo: Terror psicológico que promete mais do que entrega

Há filmes que parecem existir mais como conceito do que como experiência. Para Sempre Medo, dirigido por Osgood Perkins e escrito por Nick Lepard, é um deles. Parte de uma premissa tão recorrente no terror contemporâneo que já se tornou quase um subgênero autônomo: casal em crise, cabana isolada, presença ambígua, possível instabilidade mental, explicação ancestral no terceiro ato. O problema não está na familiaridade da fórmula, mas na maneira como o filme a utiliza sem conseguir transcendê-la.


Desde o início, Perkins demonstra domínio formal. A fotografia é elegante, o desenho de som é sofisticado, e a composição dos planos revela um diretor atento à estética e ao controle atmosférico. Cada silêncio é calculado, cada pausa cuidadosamente estendida. O filme respira fundo antes de assustar. Respira tanto que, em vez de tensão, produz exaustão. A atmosfera, aqui, não sustenta a narrativa; a substitui.


O roteiro parece operar por checklist: isolamento geográfico, protagonista feminina que começa a ver o que ninguém mais vê, marido racional que minimiza suas percepções, culminando em uma explicação de fundo mitológico que surge tardiamente como chave interpretativa. A estrutura não evolui organicamente; acumula sinais. Em vez de construir um arco dramático consistente, o filme aposta na sugestão contínua de que algo maior está por vir. Esse “algo”, quando finalmente chega, soa menos como revelação e mais como solução improvisada.


Há temas potentes orbitando a história: isolamento emocional, dependência afetiva, gaslighting conjugal, trauma, herança folclórica. Para Sempre Medo flerta com todos eles, mas não se compromete integralmente com nenhum. O resultado é um discurso fragmentado, que parece sempre à beira de formular uma ideia central, mas recua antes de assumir qualquer posição. A inquietação que permanece não é a do terror, mas a da indefinição temática.


Tatiana Maslany sustenta boa parte do filme com uma atuação contida e precisa. Sua performance comunica tensão interna e vulnerabilidade por meio de microexpressões e pequenos gestos. Há uma densidade psicológica em seu trabalho que sugere um drama mais complexo do que aquele efetivamente apresentado pelo roteiro. Em contraste, o material narrativo que lhe é oferecido reduz conflitos a símbolos pouco desenvolvidos, culminando em uma mitologia introduzida tardiamente e insuficientemente elaborada.


Perkins demonstra habilidade em compor imagens como quem organiza uma vitrine de galeria contemporânea: tudo está no lugar, a iluminação é precisa, o enquadramento é elegante. No entanto, cinema não se sustenta apenas pela moldura. Falta quadro. Falta a estrutura dramática que transforme atmosfera em experiência significativa. Confiar na inteligência do espectador não implica transferir a ele a responsabilidade de preencher lacunas estruturais.


Para Sempre Medo se insere com clareza na tradição recente do chamado “terror cult de festival”, obras que privilegiam ambiência, lentidão e ambiguidade como marcas de sofisticação. Quando esses elementos são articulados a uma arquitetura narrativa sólida, o resultado pode ser memorável. Aqui, porém, a lentidão não aprofunda; dilui. A solenidade não eleva; distancia. O filme confunde ambiência com profundidade e silêncio com complexidade.


Não se trata de um desastre estridente. Ao contrário, é um filme tecnicamente competente, visualmente refinado e conceitualmente ambicioso. Sua falha é mais sutil e talvez mais frustrante: ele parece estar sempre prestes a começar. A promessa de algo inquietante paira sobre cada cena, mas raramente se concretiza de forma decisiva.


Se o terror vive da perturbação, Para Sempre Medo provoca sobretudo uma dúvida estrutural: até que ponto atmosfera pode sustentar um filme sem o apoio de uma narrativa consistente? Ao final, resta a sensação de ter visto uma obra que se leva muito a sério, mas que não encontra substância proporcional à sua solenidade. Em vez de inquietação duradoura, o que permanece é a impressão de familiaridade. Como se, sob a superfície elegante, estivéssemos apenas revisitanto ecos de muitos outros filmes que já exploraram essa mesma cabana isolada.


Por Rodrigo Santos


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