Marty Supreme - o vazio carismático e a estética da sedução sem alma
- circuitogeral

- 12 de jan.
- 3 min de leitura
Um filme sobre ambição que confunde velocidade com profundidade
Marty Supreme o vazio carismático e a estética da sedução sem alma
Um filme sobre ambição que confunde velocidade com profundidade. Ele entra em cena já pedindo confiança, como quem diz: “Relaxa, eu sei o que estou fazendo.” E, por um tempo, a gente acredita.
Timothée Chalamet com pose de gênio inquieto, direção de arte impecável, figurantes em abundância e uma trilha sonora que insiste em sinalizar importância, mesmo quando toca Tears for Fears em um beco de 1952. Tudo parece grande, intenso e urgente. Tudo, menos consistente.
Josh Safdie parece partir de uma ideia simples: fazer um filme sobre ambição sem parar para explicá-la, porque ambição não espera, não olha para trás e não se justifica. O problema é que o filme adota essa lógica ao pé da letra. Ele corre o tempo todo e nunca para para existir.
Assim nasce Marty Mauser, um protagonista que vive em modo stories. As coisas acontecem em sequência, mas não se acumulam. Do ponto de vista psicológico, Marty é interessante não como pessoa, mas como conceito. Ele não é um personagem; é uma promessa. Um PowerPoint humano com três slides fixos: Potencial, Crescimento e Próximo Passo. Se tivesse LinkedIn, estaria descrito como visionário, disruptivo e jogador de tênis de mesa.
O filme confunde movimento com desenvolvimento. Marty está sempre indo a algum lugar, mas o roteiro parece ter medo do momento em que alguém possa perguntar por quê. Por que tênis de mesa? Por que esse desejo? Por que isso importa? A pergunta mal se forma e já é abafada por um corte rápido, música alta e a próxima cena.
As sequências de pingue-pongue funcionam como espetáculo, mas não como revelação. Poderiam ser de boliche, sinuca ou bingo do asilo. O esporte não é paixão; é pretexto. Serve apenas como caminho para dinheiro, fama e aplauso, como um coach que diz ter escolhido propósito quando, na prática, só trocou o produto.
A estética de Safdie reforça essa lógica. Tudo vibra, pulsa e exige atenção imediata. O espectador entra em um estado de leve hipnose, como quando concorda com alguém que fala rápido e usa palavras difíceis. Você não entende cada parte, mas o conjunto parece importante, então aceita.
Os personagens ao redor de Marty existem mais como função do que como gente. São peças de cenário que reforçam a sensação de mundo grande e tempo curto. As mulheres engravidam, envelhecem ou aplaudem. Os homens atrapalham ou caricaturam. Abel Ferrara, como um mafioso com cachorro, acaba sendo o personagem mais humano do filme, talvez porque pareça o único que sabe onde está e o que quer.
A trilha sonora anacrônica contribui para a sensação de deslocamento. Estamos nos anos 50, ouvindo música dos anos 80, com emoções dos anos 2020 e a profundidade emocional de um comercial de banco. O filme chama isso de atemporal, mas soa mais como indecisão.
Quando a narrativa finalmente desacelera e quase permite um momento genuíno, um sorriso no palco, um silêncio significativo, ela mesma interrompe, como se tivesse medo de se levar a sério por tempo demais.
No fim, Marty Supreme é um filme sobre ambição que evita o único lugar onde a ambição realmente se revela: o vazio. A solução é seguir em frente. Outra cidade, outra jogada, outra música épica. O espectador completa o sentido sozinho, como em um relacionamento tóxico no qual só um dos lados faz o trabalho emocional.
Quando acaba, fica a sensação de ter assistido a algo grande sem saber exatamente o quê. Como sair de uma palestra motivacional convencido de que a vida mudou, até chegar ao estacionamento.
Marty Supreme quer ser épico, mas é apenas intenso. Quer ser profundo, mas prefere ser rápido. Talvez essa seja sua mensagem mais honesta: na pressa de ser alguém, ninguém vira ninguém.








Comentários