Rayane Fortes “Ray”: O lado B de uma imagem muito bem calculada
“Ray”, de Rayane Fortes, chega ao seu lado B com a segurança de quem já entendeu uma coisa muito simples: imagem também se constrói com música. As quatro faixas novas entram no projeto sem alterar sua fisionomia. Apenas ajudam a deixá-la mais nítida.
“Me Mate de Prazer” encontra no blues o ambiente adequado para uma sensualidade cuidadosamente dosada. “Um Clichê” brinca com a própria familiaridade do título e se aproxima do soul e do pop. “Me Encontra” permanece nesse terreno mais acessível, enquanto “Na Sua Mente” leva a guitarra para uma conclusão mais roqueira.
Ela participa das composições, dos arranjos e da produção, e acompanha de perto a construção do disco. É uma dedicação bonita de ver. Afinal, quando a própria imagem está em jogo, confiar demais nas mãos alheias pode ser uma atitude um tanto desnecessária.
As referências seguem pelo mesmo caminho. David Bowie e Prince aparecem ao lado da pós-new wave e do pop performático. São escolhas de bom gosto, além de bastante úteis para situar uma artista que deseja ser percebida como alguém familiarizada com uma tradição musical em que personalidade e presença cênica caminham juntas.

O mais interessante é a maneira como tudo chega ao público com aparência de descoberta. A guitarra parece espontânea. A sensualidade parece espontânea. A vulnerabilidade parece espontânea. A liberdade criativa também.
A gravação ao vivo nos estúdios da OddSounds contribui para essa sensação. Lucca Marciano, Marcos Fischer e Victor Luiz acompanham o repertório com uma sonoridade orgânica, enquanto a produção preserva o acabamento necessário para que a experiência permaneça próxima, bonita e, sobretudo, muito bem apresentada.
As composições deixam escapar desejos, sentimentos e pequenas confissões, sempre dentro de uma moldura bastante segura. A artista se aproxima sem jamais perder o controle da distância.
Rayane fala de liberdade criativa e assume as decisões do próprio trabalho com uma segurança que chega a ser reconfortante. Não existe aquela ansiedade de quem precisa convencer o público de que pertence ao lugar. Ela simplesmente se coloca ali.
O resultado é um álbum coeso, estiloso e consciente de sua própria presença. As músicas cumprem suas funções, as referências ajudam a ampliar o cenário e a artista permanece no centro de tudo, como convém a um projeto que leva seu nome.
Rayane Fortes “Ray”: O lado B de uma imagem muito bem calculada





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