Supergirl e a melancolia dos sobreviventes
- circuitogeral

- 25 de jun.
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Kara Zor-El ocupou uma posição curiosa dentro do imaginário da DC. Nunca desfrutou da centralidade mítica do Superman, tampouco carregou o fascínio sombrio reservado ao Batman. Permaneceu numa espécie de território intermediário, suficientemente próxima de um dos maiores símbolos da cultura pop para ser constantemente comparada a ele, mas distante o bastante para que sua identidade fosse tratada como derivação. Supergirl consiste em compreender que essa condição não representa um problema a ser corrigido. Representa a própria essência da personagem.
Craig Gillespie percebe algo que muitas adaptações anteriores ignoraram. Kara não é definida por seus poderes. Tampouco pela responsabilidade que acompanha esses poderes. Sua identidade nasce de uma experiência que nenhum outro herói da DC compartilha da mesma forma: ela se lembra.
Uma lembrança não desaparece quando o objeto lembrado deixa de existir. Pelo contrário. Muitas vezes se torna ainda mais insistente. O filme compreende essa dinâmica com rara sensibilidade. Krypton não aparece apenas como um planeta destruído. Surge como uma presença fantasmagórica que acompanha a protagonista para onde quer que ela vá, semelhante à voz de um parente morto que continua habitando determinados cômodos da memória muito depois do funeral.
A interpretação de Milly Alcock demonstra uma compreensão notável desse estado emocional. Sua Kara não se comporta como alguém em busca de um destino heróico. Comporta-se como alguém que passou tempo demais sobrevivendo. A diferença entre uma coisa e outra é significativa. Heróis costumam olhar para frente. Sobreviventes frequentemente carregam o hábito involuntário de olhar para trás, como se uma parte deles permanecesse presa ao instante em que tudo se rompeu.
Alcock traduz essa sensação sem recorrer aos excessos dramáticos que costumam acompanhar personagens traumatizados. Em muitos momentos, basta observar a maneira como ela ocupa os espaços. Kara parece atravessar ambientes sem realmente habitá-los. Conversa com pessoas sem estabelecer vínculos duradouros. Participa dos acontecimentos como alguém que continua esperando, em algum lugar da consciência, por um retorno impossível.
A destruição de Krypton deixa de funcionar como um elemento biográfico e passa a operar como uma condição existencial. Kara não perdeu apenas familiares, amigos ou referências afetivas. Perdeu a geografia que organizava sua identidade. Perdeu a língua que falava sem esforço. Perdeu os hábitos que davam forma aos seus dias. Perdeu até mesmo a possibilidade de encontrar alguém capaz de compreender plenamente aquilo que foi perdido.
A vastidão do cosmos reforça essa percepção. Cada planeta visitado oferece novas paisagens, novas culturas e novas possibilidades de pertencimento. Nenhum deles resolve o problema fundamental da protagonista. A cada parada, a sensação de desenraizamento se torna mais evidente. O universo se expande diante dela com uma abundância quase infinita de destinos possíveis, enquanto sua memória continua apontando para um único lugar inacessível.
A direção traduz esse sentimento através de uma estética surpreendentemente física. Em uma época em que muitos blockbusters parecem construídos dentro de computadores incapazes de produzir peso ou textura, Supergirl aposta em superfícies gastas, próteses elaboradas e ambientes que transmitem a sensação de terem sido ocupados por pessoas reais. Os cenários apresentam marcas de uso. As criaturas carregam deformações, cicatrizes e imperfeições. O resultado lembra menos uma vitrine tecnológica e mais um universo que envelheceu.

Ruthye (Eve Ridley) deveria funcionar como o espelho dramático da protagonista. Ambas carregam feridas abertas pela violência. Ambas acreditam que algo lhes foi arrancado de maneira irreparável. Ambas buscam uma forma de reorganizar o caos produzido por essa perda. A diferença é que Ruthye ainda deposita fé na vingança, enquanto Kara (Milly Alcock) parece ter chegado ao estágio em que a dor já não necessita de justificativas ideológicas para continuar existindo.
O roteiro oscila na construção da personagem. Em determinadas sequências, Ruthye assume a posição de uma jovem vulnerável cuja sobrevivência depende inteiramente da intervenção de terceiros. Pouco depois, demonstra capacidades que transformam essa vulnerabilidade em mera conveniência dramática. Não se trata apenas de uma questão de coerência narrativa. Trata-se de um problema de credibilidade emocional. Personagens ganham densidade quando suas contradições parecem humanas. Perdem densidade quando suas transformações parecem obedecer às necessidades imediatas da trama.
O personagem movimenta os acontecimentos, provoca conflitos e estabelece o motor da perseguição que impulsiona a narrativa. Falta-lhe, porém, a capacidade de ocupar espaço na imaginação do espectador. Krem (Matthias Schoenaerts) não parece um indivíduo. Parece uma tarefa. Um problema que precisa ser resolvido para que a protagonista continue avançando.
A situação não compromete o filme de maneira decisiva porque a obra nunca demonstra interesse genuíno por ele. O verdadeiro antagonista de Kara não é Krem. É a memória. É a dificuldade de encontrar pertencimento. É a sensação de carregar consigo um passado que nenhum lugar consegue absorver.
A composição orquestral compreende perfeitamente o universo interior da protagonista. Seus melhores momentos evocam a sensação de uma civilização desaparecida tentando sobreviver através de ecos dispersos. Algumas inserções de música pop, contudo, produzem um efeito curioso. Não chegam a destruir as cenas, mas deslocam sua atmosfera. Funcionam como letreiros luminosos instalados no interior de uma ruína antiga. Chamam atenção para si mesmas justamente quando a narrativa deveria aprofundar a experiência emocional do espectador.
Um deles deseja examinar trauma, exílio e identidade com uma honestidade pouco comum ao gênero. O outro demonstra receio de permanecer tempo demais nesse território e procura reafirmar constantemente sua condição de entretenimento de grande orçamento. Nenhum blockbuster escapa completamente desse tipo de negociação. O problema surge quando a negociação se torna visível.
A narrativa demonstra interesse genuíno por seus personagens. Interesse verdadeiro, não aquele afeto protocolar que tantas franquias exibem enquanto correm para a próxima sequência de ação. O filme observa Kara com paciência. Permite que ela erre. Permite que ela seja amarga. Permite que ela carregue ressentimentos. Permite até mesmo que pareça perdida.
Ao longo da história, Kara não encontra uma solução para sua dor. Não recebe uma revelação transformadora. Não descobre um sentido oculto capaz de reorganizar todas as perdas que sofreu. O filme demonstra maturidade suficiente para compreender que certas feridas não desaparecem. Aprendemos apenas a construir uma vida ao redor delas.
Por isso, a imagem que permanece na memória não envolve explosões, voos ou demonstrações de poder. Permanece a figura de uma mulher percorrendo galáxias inteiras enquanto continua assombrada por um endereço que deixou de existir. Como alguém que guarda a chave de uma casa demolida décadas atrás, Kara segue em frente carregando um objeto que já não abre porta alguma, mas cuja simples presença a impede de esquecer quem foi.
Supergirl e a melancolia dos sobreviventes




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