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“Sérgio Ricardo Memória Viva Ocupa Universidades”: ninguém ocupa a memória por acaso

Cinema, música, teatro, universidade e debate cultural. À primeira vista, tudo parece organizado dentro do repertório tradicional das grandes celebrações artísticas brasileiras: encontros sensíveis, homenagens legítimas e reconhecimento histórico. Mas basta observar com um pouco mais de atenção para perceber que “Sérgio Ricardo Memória Viva Ocupa Universidades” não surge apenas como tributo cultural. Há algo muito mais inquietante sendo anunciado ali, e talvez seja exatamente por isso que o projeto desperte tanto interesse antes mesmo de acontecer.


Cinema, música, teatro, universidade

O que está em jogo não parece ser apenas a preservação da memória de Sérgio Ricardo. O que se anuncia é uma tentativa de impedir que essa memória seja domesticada.


Isso ocorre porque memórias domesticadas deixam de provocar desconforto. Tornam-se seguras. Viram frases em catálogo institucional, nomes de auditório, retrospectivas protocoladas e homenagens cuidadosamente esterilizadas, para que ninguém precise lidar com aquilo que ainda permanece vivo dentro da obra. O passado é transformado em peça ornamental. Todos aplaudem, registram fotografias, fazem discursos emocionados e retornam para casa sem qualquer perturbação real.

O projeto idealizado por Marina Lutfi parece apontar justamente na direção oposta.


memórias domesticadas

A escolha das universidades como território central da ocupação está longe de ser casual. Existe uma narrativa recorrente que apresenta a universidade como espaço natural da reflexão crítica, do pensamento livre e do debate transformador. Mas a realidade costuma revelar outra camada menos confortável. Basta surgir uma arte que realmente provoque fissuras para que muitos prefiram o silêncio elegante da neutralidade.


O projeto parece compreender isso com clareza.


Ao anunciar a ocupação da UFRJ e da UNIRIO com filmes, debates, música e teatro, Marina Lutfi recoloca a cultura no lugar que frequentemente se tenta apagar: o da disputa simbólica. Porque cultura nunca foi território inocente. Toda memória pública envolve seleção. Toda seleção envolve poder. E todo poder decide, conscientemente ou não, quais vozes permanecerão visíveis e quais serão lentamente empurradas para as margens da história.


 escolha das universidades

Quem merece continuar sendo lembrado?


Quem pode ser discretamente transformado em nota de rodapé?


Quem interessa manter vivo no imaginário coletivo, e quem precisa desaparecer para que determinadas narrativas permaneçam confortáveis?


Nesse sentido, o projeto também sugere algo extremamente delicado sobre os chamados acervos familiares. Frequentemente tratados apenas como espaços afetivos de preservação, os arquivos aparecem aqui como instrumentos de disputa narrativa. Guardar documentos nunca significa apenas armazenar papéis, imagens ou registros. Arquivos decidem quais versões do passado continuarão respirando dentro do presente.


E talvez exista ainda uma dimensão emocional mais profunda atravessando toda essa proposta.


Marina Lutfi não surge apenas como filha protegendo a obra do pai. Existe ali uma operação subjetiva muito mais arriscada: transformar a figura paterna em debate público implica aceitar que essa memória deixe de pertencer exclusivamente à intimidade familiar. O pai deixa de ser apenas lembrança privada. Torna-se símbolo, interpretação e análise coletiva.


Outras pessoas passam a reconstruir sentidos sobre aquela trajetória.


E isso nunca acontece sem perdas.


Porque toda memória compartilhada sofre deslocamentos inevitáveis.


 lembrado

Os filmes anunciados para a ocupação tornam essa operação ainda mais evidente. “Esse Mundo é Meu”, “A Noite do Espantalho” e “Bandeira de Retalhos” retornam não como peças históricas acomodadas em vitrines culturais, mas como espelhos perturbadores de um país que continua reciclando antigas violências sob linguagens aparentemente novas.


As desigualdades urbanas persistem.


As remoções forçadas continuam reorganizando territórios.


A exclusão social apenas atualiza seus mecanismos.


O Brasil altera o vocabulário institucional, modifica sua estética política, renova os discursos de modernização, mas determinadas estruturas permanecem assustadoramente intactas.


E talvez seja exatamente isso que produza o efeito mais desconfortável da ocupação: o passado de Sérgio Ricardo ainda não parece suficientemente passado.


A escolha da palavra “ocupação”, aliás, talvez concentre uma das decisões mais inteligentes de todo o projeto. Não se trata de um festival comemorativo qualquer. “Ocupação” carrega peso histórico, político e simbólico. A palavra remete imediatamente à resistência, ao conflito, à permanência, à reivindicação de espaço e ao enfrentamento de apagamentos.


filmes anunciados

Ela rompe a lógica confortável da homenagem pacificada.

Existe quase uma provocação silenciosa embutida no título: algumas memórias precisam ocupar espaços porque, se não ocuparem, serão lentamente neutralizadas.


E a neutralização cultural costuma ser muito mais eficiente do que a censura explícita.


Ninguém precisa proibir uma obra quando consegue transformá-la em patrimônio inofensivo. Basta retirar dela sua potência crítica. Basta enquadrá-la como peça histórica admirável, porém incapaz de interferir no presente.


O projeto parece compreender perfeitamente esse mecanismo.


Por isso, Sérgio Ricardo não surge como monumento intocável.


Monumentos tranquilizam.


A ocupação, ao contrário, promete produzir atrito.


Essa dimensão política atravessa toda a estrutura anunciada para o evento. A presença de nomes como Amir Haddad, Ivana Bentes e Jandira Feghali reforça uma evidência frequentemente negada pelos discursos culturais mais higienizados: arte e poder jamais estiveram separados.


 lógica confortável

Até mesmo o financiamento por emenda parlamentar explicita uma verdade que muitos preferem esconder. Preservar memória exige disputa institucional. Exige interesse público. Exige articulação política. Nada permanece vivo sozinho.


Existe ainda uma camada silenciosa e profundamente contemporânea nessa ocupação universitária.


Num tempo marcado pela hiperconexão superficial, pelo excesso permanente de informação e pelo isolamento social sofisticadamente naturalizado pelas telas, reunir pessoas para assistir a filmes, ouvir música e debater coletivamente ultrapassa o simples campo da programação cultural.


O encontro passa a funcionar como resistência.


Resistência contra a fragmentação afetiva.


Contra a dispersão da experiência coletiva.


Contra a incapacidade contemporânea de permanecer junto diante de algo que exige reflexão.


As apresentações previstas de Marina Lutfi e João Gurgel talvez concentrem a parte mais emocional de todo esse movimento. Quando filhos interpretam a obra do pai diante de estudantes, pesquisadores e espectadores, aquilo deixa de ser apenas espetáculo artístico. A herança cultural mistura-se inevitavelmente à elaboração afetiva da ausência, da permanência e da continuidade simbólica.


O palco transforma-se em espaço de transmissão emocional entre gerações.


E talvez seja justamente isso que “Sérgio Ricardo Memória Viva Ocupa Universidades” esteja tentando afirmar desde já: certas obras sobrevivem porque continuam produzindo desconforto.


Marina Lutfi parece compreender que preservar Sérgio Ricardo não significa congelá-lo no passado, mas recolocá-lo permanentemente em circulação crítica. Significa permitir que sua obra continue tensionando um país que ainda convive com desigualdade estrutural, apagamentos históricos e enormes dificuldades de elaboração coletiva da própria memória.


No fundo, a ocupação fala menos sobre nostalgia cultural e muito mais sobre permanência política.


Algumas vozes continuam atravessando o presente porque os conflitos que elas denunciaram jamais desapareceram completamente.


PROGRAMAÇÃO COMPLETA

Toda a programação conta com a presença de Marina Lutfi, filha de Sérgio Ricardo e diretora do acervo SRMV, que participa das atividades como mediadora e articuladora desse diálogo entre memória e contemporaneidade.

11/05 SEGUNDA

• RODA DE CONVERSA  14h – 16h / UFRJ - Salão DouradoINSISTIR NA TRANSFORMAÇÃO: A CULTURA DE SÉRGIO RICARDO

Docentes: Paulo Oneto (ECO) e Ana Célia Castro (CBAE)Convidados: Amir Haddad e Jandira Feghali

Quem é, afinal, Sérgio Ricardo? Como e por que suas múltiplas vozes insistem em ecoar nos dias de hoje e para frente? Um papo sobre a cultura como ferramenta essencial e política para a transformação coletiva.

 

12/05 TERÇA

• FILME  15h – 17h / UFRJ - Auditório CPM EcoESSE MUNDO É MEU (1964)

Docente: Afonso Claudio (ECO)Convidado: Michel Schettert

Nesse longa de Sérgio Ricardo, a cidade emerge como espaço de disputa, onde trajetórias anônimas expõem tensões sociais, desigualdades e desejos de pertencimento. Ao fim, conversamos sobre como o longa marca a estreia de Dib Lutfi (irmão de Sérgio) na fotografia que revolucionou a linguagem do cinema brasileiro.• RODA DE CONVERSA  16h30 - 18h30 / UNIRIO - Auditório Paulo FreireSÉRGIO RICARDO MEMÓRIA VIVA E ACERVOS FAMILIARES

Docente: Ivan Coelho (EM) e Nina Saroldi (EEP)Convidados: Ana Lúcia de Castro e Roberto Gnattali

Memória é construção viva, atravessada por afetos e escolhas de como (re)contar histórias. Acervos familiares revelam modos de narrar essas histórias no tempo, entre olhares íntimos e coletivos. Ao abordar sua gestão, o encontro entre diferentes acervos propõe ampliar o debate sobre legado, permanência e responsabilidade.

 

13/05 QUARTA

• TEATRO  19h - 21h / UFRJ - Sala VianninhaRE-ACORDAR

Com o grupo TUCAARTE e Amir Haddad

Dirigida por Amir Haddad, que também participa da apresentação como narrador, a peça conta a história dos integrantes do Teatro Universitário Carioca (o TUCAARTE), formado em 1966, quando montaram “O Coronel de Macambira”, de Joaquim Cardozo, até o momento atual.

14/05 QUINTA

• RODA DE CONVERSA  14h – 16h / UNIRIO - Auditório Paulo Freire  NO RITMO DO MOVIMENTO: A MÚSICA DE SR

Docente: Josimar Carneiro (IVL)Convidados: João Gurgel, Alexandre Caldi e Juan Varela

A vasta obra musical de Sérgio Ricardo pulsa entre criação e contexto, gesto artístico e ação política. Vamos apresentar, ouvir e falar sobre suas composições, em um diálogo sobre o impacto de suas melodias e letras entre reverberações estéticas, históricas e sociais de ontem, hoje e amanhã.

• FILME  18h30 – 21h / UFRJ - Auditório CPM EcoA NOITE DO ESPANTALHO (1974)

Docente: Katia Augusta (ECO)

Em A Noite do Espantalho, a fabulação popular, a música e a imagem se entrelaçam para narrar conflitos de terra, poder e pertencimento. Entre o mítico e o político, vamos debater com o grupo Cinerama sobre como a obra convoca formas coletivas de resistência que seguem ressoando nas disputas e imaginários do Brasil de hoje.

15/05 SEXTA

• AULA-SHOW  15h - 17h / UNIRIO - Sala Alberto NepomucenoMARINA LUTFI E JOÃO GURGEL CANTAM SÉRGIO RICARDO

Docente: Pedro Aragão (IVL)Músicos: Giordano Gasperin (baixo) e Naife Simões (percussão)Convidados: Marcelo Caldi e Antonio Dal Bó

Entre fala e canção, vamos passear e viver a obra de Sérgio Ricardo pelas vozes de seus filhos, em uma guiança por fatos, sentidos e desdobramentos de suas criações e histórias.

18/05 SEGUNDA

• FILME  14h – 16h / UFRJ - Auditório CPM EcoBANDEIRA DE RETALHOS (2018)

Convidado: Daniel Paes

O filme mais recente de Sérgio Ricardo retrata a luta concreta e real contra a remoção de moradores do Morro do Vidigal, ocorrida fortemente na década de 1970. Vamos conversar sobre a construção do filme e entender como, ao lado da comunidade, o próprio artista se insere na resistência, costurando memória, território e direito à permanência - uma urgência que segue ecoando nas disputas urbanas de hoje.

• RODA DE CONVERSA  16h30 – 18h30 / UFRJ - Salão DouradoIMAGENS DA GENTE: CINEMA E ARTE POPULAR EM SR

Docente: Ivana Bentes (PR-5)Convidados: Marcello Melo e Cavi Borges

Nas linguagens visuais da obra de Sérgio Ricardo, cinema e arte popular se entrelaçam como expressão compartilhada e força de invenção. Um papo sobre a imagem em movimento, sempre atravessada pelo povo, criando formas de ver e narrar o Brasil que tensionam estética e realidade.

 

19/05 TERÇA

• FILME  14h – 16h / UFRJ - Auditório CPM EcoJULIANA DO AMOR PERDIDO (1969)

Convidado: Bruno Tavares

Neste longa de Sérgio Ricardo, afetos e desencontros marcam a experiência urbana, revelando subjetividades em tensão com normas sociais e expectativas de seu tempo. Ao fim da exibição, batemos um papo sobre o diálogo entre as imagens e a trilha sonora que orienta esses modos de sentir e existir ao longo do filme.

20/05 QUARTA

• TEATRO  14h – 16h / UNIRIO - Sala Glauce RochaRE-ACORDAR

Com o grupo TUCAARTE e Amir Haddad

Dirigida por Amir Haddad, que também participa da apresentação como narrador, a peça conta a história dos integrantes do Teatro Universitário Carioca (o TUCAARTE), formado em 1966, quando montaram “O Coronel de Macambira”, de Joaquim Cardozo, até o momento atual.

22/05 SEXTA

• SHOW DE ENCERRAMENTO  17h - 19h / UFRJ - Salão DouradoMARINA LUTFI E JOÃO GURGEL CANTAM SÉRGIO RICARDO

Músicos: Giordano Gasperin (baixo) e Naife Simões (percussão)Convidados: Marcelo Caldi, Alexandre Caldi e Bebê Kramer

Um grande viva à esta obra múltipla e atemporal, celebrando e experimentando a memória, o encontro e o convite à (nossa) transformação contínua - Marina Lutfi, João Gurgel e convidados interpretam as canções e trilhas sonoras numa seleção potente, retratando toda a inventividade musical de Sérgio Ricardo.

 

Serviço:

Sérgio Ricardo Memória Viva Ocupa Universidades

Data: 11 a 22 de maio

Endereço: UNIRIO e UFRJ (campus Praia Vermelha) – Rio de Janeiro

Programação: rodas de conversa, mostra de filmes, encenação teatral e shows

Entrada gratuita 


“Sérgio Ricardo Memória Viva Ocupa Universidades”: ninguém ocupa a memória por acaso

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