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Um Rio Dentro de Mim: O musical em que até as cartas têm mais história que as protagonistas

há 12 horas
3 min de leitura

Reencontrar a família por ocasião de um falecimento já costuma ser uma experiência desagradável. Acrescente a tarefa de limpar um porão, algumas cartas antigas e duas irmãs obrigadas a conviver com os fantasmas umas das outras. Pronto: temos um programa de entretenimento mais interessante do que um jantar de domingo. É dessa premissa que parte Um Rio Dentro de Mim, musical com dramaturgia de Rebecca Noguchi, direção de Bernardo Dugin e direção musical de Tony Lucchesi.


A história acompanha duas irmãs que, após a morte da mãe, Ivone, reencontram-se para organizar o porão da matriarca. Entre poeira, objetos esquecidos e correspondências antigas, descobrem uma vida materna atravessada por amores, perdas e pela presença constante do Rio de Janeiro. Uma investigação familiar que demonstra como os mortos conseguem continuar provocando reuniões, discussões e despesas, mesmo sem precisar comparecer pessoalmente.


Interpretadas por Carol Botelho e Deborah Marins, as protagonistas conduzem uma narrativa sobre memória, vínculos familiares e descobertas tardias. A relação entre as duas oferece um terreno fértil para conflitos, ressentimentos e afetos mal resolvidos. Afinal, poucas coisas são tão eficientes em despertar antigas mágoas quanto abrir uma caixa de lembranças. A família tem essa habilidade admirável de transformar qualquer objeto em evidência de um crime emocional cometido há vinte anos.


O espetáculo encontra no repertório musical um de seus principais atrativos. Vinicius de Moraes, Aldir Blanc, Nana Caymmi, Elza Soares e Cássia Eller emprestam suas canções à narrativa, formando uma espécie de inventário sentimental da cidade. É uma seleção respeitável, capaz de fazer até os corações mais resistentes considerarem a possibilidade de sentir alguma coisa. Uma concessão bastante inconveniente para quem prefere manter suas emoções devidamente enterradas.


A música, acompanhada pelos instrumentistas Tony Lucchesi, Pedro Parreira e Thaís Ferreira, funciona como elo entre a intimidade das personagens e a memória coletiva carioca. O repertório ajuda a estabelecer uma atmosfera de reconhecimento, na qual cada canção parece guardar uma lembrança que o público julgava ter perdido. O Rio aparece em suas muitas versões: apaixonado, boêmio, popular, contraditório e, como toda cidade interessante, um tanto problemático.


Um Rio Dentro de Mim

A direção de Bernardo Dugin aposta na delicadeza e na proximidade com o espectador. A proposta parece compreender que não é necessário provocar uma tempestade em cena quando algumas cartas antigas já são suficientes para inundar uma família inteira. A dramaturgia de Rebecca Noguchi organiza essas descobertas com sensibilidade, permitindo que a narrativa transite entre o passado e o presente sem transformar a experiência em uma sessão interminável de terapia coletiva.


Carol Botelho e Deborah Marins sustentam o reencontro com interpretações que precisam equilibrar as tensões entre as irmãs e a vulnerabilidade provocada pela descoberta de uma história que não lhes pertencia inteiramente. Afinal, conhecer os pais para além da função parental pode ser uma experiência perturbadora. Descobrir que sua mãe teve uma vida própria, amou, sofreu e tomou decisões sem consultar os filhos é quase uma afronta à nossa necessidade infantil de acreditar que o universo gira em torno de nós.


O ponto mais interessante da montagem está na maneira como associa a memória individual à identidade de uma cidade. O Rio não aparece como simples cartão-postal destinado a arrancar suspiros de turistas. Surge como testemunha de encontros, separações e transformações. Uma cidade que guarda histórias em suas ruas, esquinas e canções, embora seus habitantes insistam em deixar tudo espalhado pelos porões.


Há, contudo, um risco nesse tipo de proposta: a nostalgia excessiva. Quando se convocam tantos nomes importantes da música brasileira para falar de amor, saudade e pertencimento, existe sempre a possibilidade de a emoção chegar antes da dramaturgia. O desafio está em fazer com que as canções sirvam à história, em vez de a história funcionar como uma desculpa elegante para apresentar um repertório de sucessos. A combinação, pelo que propõe a montagem, procura escapar dessa armadilha.


Um Rio Dentro de Mim é um musical sobre aquilo que permanece depois das despedidas. Cartas, lembranças, afetos e algumas feridas cuidadosamente conservadas para futuras gerações. Uma obra que encontra beleza naquilo que o tempo não conseguiu apagar e que sugere uma conclusão bastante inconveniente: até mesmo os sentimentos merecem uma segunda visita.


Principalmente aqueles capazes de revelar que nossos mortos tinham uma vida muito mais interessante do que imaginávamos.


Um Rio Dentro de Mim: O musical em que até as cartas têm mais história que as protagonistas


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