“Uma ideia na cabeça e uma câmera na mão: no rastro do cinema do Alto Tietê”, Dinho Santoz: O mito da câmera na mão e a realidade do bolso vazio
Pesquisar a história do cinema no Alto Tietê é um trabalho necessário. O problema é que, no Brasil, a cultura costuma precisar morrer primeiro para ganhar autorização de existir na memória. Enquanto o cinema funciona, ninguém pergunta quem paga a conta, quem mantém a sala aberta ou quem está formando a próxima geração de realizadores. Quando fecha, aparecem as homenagens, as fotografias antigas e aquela frase solene sobre a importância de preservar o patrimônio. O prédio vira saudade, a saudade vira discurso e o discurso, com alguma sorte, vira um livro.
É nesse terreno que Dinho Santoz coloca sua câmera em Uma ideia na cabeça e uma câmera na mão: no rastro do cinema do Alto Tietê. Ao percorrer histórias de Suzano, Mogi das Cruzes, Itaquaquecetuba, Guararema, Poá e Ferraz de Vasconcelos, o autor enfrenta uma espécie de amnésia institucional: a tendência de tratar a produção cultural distante dos grandes centros como se ela tivesse surgido ontem, sem passado, sem referências e, de preferência, sem necessidade de investimento.
A pesquisa sobre os antigos cinemas de rua tem um mérito evidente. Recuperar nomes como Cine Saci, Cine Odeon e Cine Ideal é devolver existência pública a lugares que já ocuparam um espaço concreto na vida das cidades. Só que uma sala de cinema não era apenas um estabelecimento onde se comprava ingresso e discutia-se o filme na saída. Era também um lugar onde adolescentes tinham encontros, famílias negociavam programas de domingo e gente que mal se conhecia dividia duas horas de silêncio diante de uma tela. Hoje, muita gente assiste a um filme no celular enquanto responde mensagens, come alguma coisa e verifica se alguém visualizou a última mensagem enviada. A experiência mudou bastante. A humanidade, infelizmente, continua achando que consegue prestar atenção em quatro coisas ao mesmo tempo.
O desaparecimento dessas salas, portanto, merece mais do que nostalgia. Saudade é uma excelente matéria-prima para crônicas, mas um péssimo substituto para políticas culturais. Lembrar que existiu um cinema em determinada rua não resolve o problema de quem deseja produzir um curta, encontrar equipamentos, remunerar uma equipe ou exibir seu trabalho para uma plateia. A memória pode explicar de onde viemos. Não compra, sozinha, uma diária de câmera.
As entrevistas com cineastas, produtores e agentes culturais deslocam a conversa dos edifícios para as pessoas que sustentam a atividade audiovisual. Essa mudança é fundamental. Um município pode ter um teatro bonito, uma sala equipada e uma programação anunciada com cartaz caprichado. Se não houver continuidade, formação, público e condições para que os profissionais trabalhem, o equipamento corre o risco de virar um cenário caro para fotografias de inauguração.
O poder público aparece, nesse debate, com sua conhecida habilidade de transformar projetos culturais em eventos pontuais. Inaugura-se um espaço, faz-se uma cerimônia, distribuem-se agradecimentos e publica-se uma fotografia com autoridades sorridentes. Meses depois, o artista continua procurando financiamento, o produtor acumula funções e o público descobre que a programação depende de uma nova verba. A cultura fica parecendo uma visita ilustre: recebe-se com entusiasmo, oferece-se café e espera-se que vá embora antes de dar trabalho.
A trajetória da Companhia Cinematográfica Vera Cruz por Itaquaquecetuba, durante as filmagens de Sinhá Moça, em 1953, oferece outra perspectiva interessante. Moradores locais participaram como figurantes, ligando a região a uma produção importante da história do cinema brasileiro. O episódio ajuda a desmontar a ideia de que o audiovisual só começa quando chega alguém de São Paulo com equipamento, orçamento e uma equipe que sabe onde estacionar a van. A região já participou dessa história. A questão é por que tantas dessas participações precisam ser redescobertas décadas depois.

O título escolhido por Santoz remete a uma ideia que atravessou gerações de realizadores: para fazer cinema, basta ter algo a dizer e uma câmera. É uma imagem sedutora, sobretudo para quem começa com poucos recursos. Também é uma imagem incompleta. Uma câmera não paga transporte, não monta cenário, não faz contrato, não distribui filme e não garante que alguém vá assisti-lo. O entusiasmo põe uma produção em movimento; a estrutura permite que ela continue existindo. Confundir as duas coisas é uma maneira bastante eficiente de romantizar a precariedade.
Quem produz cultura fora dos principais circuitos brasileiros conhece esse roteiro. O profissional escreve, dirige, grava, edita, divulga, organiza a sessão e, quando sobra tempo, tenta receber pelo trabalho. A falta de recursos ganha um verniz heroico, como se trabalhar no limite fosse uma escolha estética. Não é. Criatividade pode nascer da escassez, mas isso não transforma a escassez em política pública desejável.
A proposta de Santoz merece ser lida também por aquilo que ainda pode provocar. Uma pesquisa documental, por mais cuidadosa, depende dos acervos encontrados, das pessoas localizadas e das lembranças que resistiram ao tempo. Fotografias desaparecem, documentos se perdem, testemunhas morrem e histórias inteiras sobrevivem apenas na conversa de alguém. O pesquisador precisa selecionar, organizar e interpretar. O resultado tem valor, mas não deve ser confundido com um inventário definitivo de tudo o que aconteceu.
Aqui cabe uma cobrança ao próprio campo cultural. Se a preservação depender sempre da iniciativa individual de alguém disposto a procurar caixas antigas, entrevistar moradores e reconstruir acontecimentos, a memória continuará vulnerável ao acaso. Arquivos precisam de organização, instituições precisam compartilhar seus registros e as cidades precisam reconhecer que preservar documentos culturais é uma responsabilidade permanente. Não é razoável esperar que cada geração encontre um voluntário apaixonado para impedir que a anterior desapareça.
O cinema é uma arte feita para projetar imagens diante de outras pessoas, mas sua própria trajetória frequentemente termina guardada em caixas, depósitos e arquivos sem identificação. Produzem-se filmes, realizam-se mostras, formam-se equipes e criam-se vínculos. Depois, quando ninguém registra o processo, a cidade parece ter ficado anos sem produzir nada. O esquecimento fabrica uma mentira conveniente: a de que nunca houve trabalho suficiente para justificar atenção.
Uma ideia na cabeça e uma câmera na mão: no rastro do cinema do Alto Tietê enfrenta essa mentira ao reunir vestígios de uma atividade que atravessou décadas e continua presente. Seu valor está em dar materialidade a uma história que não cabe na divisão simplista entre um passado glorioso e um presente sem importância. A produção regional tem contradições, dificuldades e realizações que merecem ser examinadas sem condescendência e sem a obrigação de transformar todo artista em herói.
Dinho Santoz recupera rastros de uma história coletiva e, com isso, oferece uma base para que ela seja ampliada, contestada e aprofundada. Nenhum livro consegue conter todas as experiências de uma região, e seria injusto cobrar isso de uma única pesquisa. A cobrança adequada é outra: que o registro desperte novas investigações e que as instituições não deixem para o próximo pesquisador a tarefa de descobrir, mais uma vez, aquilo que já poderiam ter preservado.
A câmera continua na mão. O que ainda falta, em muitas cidades, é decidir quem vai garantir que ela tenha condições de continuar filmando.
“Uma ideia na cabeça e uma câmera na mão: no rastro do cinema do Alto Tietê”, Dinho Santoz: O mito da câmera na mão e a realidade do bolso vazio





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