A Coisa - Provocar é fácil; surpreender com inteligência é outra coisa
Por Paulo Sales
Confesso que esperava mais requinte. Afinal, provocar o público exige precisão, e o absurdo, quando mal dosado, veste qualquer disparate com a pretensão de genialidade. A Coisa, espetáculo dividido em três atos, aposta no humor, no estranhamento e na desconstrução da linguagem teatral para examinar aquilo que acontece quando personagens perdem o domínio sobre si mesmos, os segredos escapam ao controle e até o rosto deixa de obedecer ao ator.
Em “A Coisa”, dois velhos amigos descobrem que suas ações jamais lhes pertenceram por completo. Uma premissa curiosa, embora sua eficácia dependa da capacidade de transformar o conceito em conflito cênico, em vez de deixá-lo desfilar como uma ideia bem vestida à espera de aplausos. “O Enigma” introduz dois desconhecidos presos a um jogo de segredos, enquanto “A Máscara” apresenta três atores diante de uma situação insólita: um deles perdeu a expressão facial. O conjunto oferece possibilidades distintas para explorar o ridículo, a tensão e as contradições do comportamento humano.
A dramaturgia contemporânea, marcada por reviravoltas e situações absurdistas, parece interessada em desarrumar as convenções do palco. A proposta merece atenção, embora o experimentalismo precise de rigor para que o inesperado não se converta em mero capricho. Provocar por provocar é um luxo que nem toda obra pode sustentar. O humor ganha sofisticação quando nasce das situações e da atuação, enquanto o excesso de artifício corre o risco de transformar a irreverência em decoração.

A relação entre realidade e ficção constitui o eixo mais instigante da montagem. Os personagens perdem o controle de suas ações, os desconhecidos se veem enredados em mistérios e o ator privado de sua expressão facial enfrenta uma ruptura entre corpo, identidade e representação. O teatro surge como um espaço no qual as certezas podem ser desmontadas diante dos espectadores. Uma pena que ideias tão férteis exijam execução igualmente cuidadosa para não permanecerem no território das boas intenções.
A divisão em três atos permite variar os mecanismos do absurdo, mas cobra unidade de ritmo e consistência na passagem de uma situação à seguinte. A direção precisa organizar o caos sem domesticá-lo; a dramaturgia deve dar consequência às suas rupturas; e os intérpretes precisam sustentar o jogo com inteligência corporal, domínio do tempo cômico e precisão expressiva. Quando esses elementos se desequilibram, a ousadia perde o corte e o espetáculo corre o risco de confundir liberdade com dispersão.
A Coisa demonstra interesse pelas engrenagens do fazer teatral e pela instabilidade das identidades que o palco põe em circulação. Sua proposta abre espaço para o riso e para o desconforto, duas matérias que combinam muito bem quando tratadas com elegância. Resta à encenação fazer com que cada provocação tenha peso próprio, sem depender exclusivamente da surpresa. Afinal, até o absurdo precisa de bom gosto. E convenhamos: poucas coisas são mais deselegantes do que uma ideia promissora mal executada.
A Coisa - Provocar é fácil; surpreender com inteligência é outra coisa





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