Dora: Quando a vida que vivemos deixa de caber na história que contamos
- circuitogeral

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POR PAULO SALES
Há uma idade em que começamos a desconfiar das próprias certezas. Não necessariamente porque estejam erradas, mas porque, depois de tantos anos sustentando uma versão de nós mesmos, torna-se difícil continuar defendendo o personagem.
É desse lugar que parte Dora, monólogo escrito por Thereza Falcão e protagonizado por Grace Gianoukas. A personagem chega à cena acreditando conhecer a própria história, até perceber que uma vida pode ser verdadeira e, ao mesmo tempo, ter sido mal interpretada por quem a viveu.
A dramaturgia de Thereza Falcão nasce dessa revolução íntima. Dora passou boa parte da vida cuidando dos outros, acumulando funções, responsabilidades e renúncias. O espetáculo, porém, não a transforma em vítima. Ela também escolheu, acomodou-se e, muitas vezes, chamou de escolha aquilo que talvez fosse apenas o caminho esperado.
Dora é espirituosa, impaciente, afetuosa, controladora e vulnerável. Reclama, aconselha, resiste às novidades e, por trás de tudo, guarda uma enorme necessidade de afeto e reconhecimento. O humor nasce menos do absurdo do que do reconhecimento: Dora é familiar porque poderia ser nossa mãe, tia, amiga, vizinha ou nós mesmos.
Grace Gianoukas compreende essa complexidade sem transformar Dora em uma heroína edificante. Sua interpretação combina humor, ironia e emoção para revelar uma mulher que, depois de tantos anos sendo indispensável aos outros, precisa descobrir quem é quando ninguém está precisando dela.
O espetáculo aborda envelhecimento, luto, solidão, culpa e pertencimento sem recorrer à solenidade. Ao contrário, encontra no humor uma forma de olhar para dores profundas. Dora olha para o passado não porque o futuro tenha acabado, mas porque finalmente entende que o passado ainda pode ser interrogado.

Não é possível mudar os fatos, recuperar o tempo ou apagar escolhas. É possível, porém, mudar a posição que ocupamos diante deles. Um erro pode continuar sendo erro sem se tornar uma sentença; uma lembrança pode permanecer dolorosa sem continuar comandando a vida; e um desejo pode chegar tarde sem deixar de ser legítimo.
Há, nesse sentido, uma provocação especialmente potente para mulheres de uma geração educada para cuidar, suportar e manter tudo funcionando: quantas vezes aquilo que chamamos de escolha foi apenas aquilo que esperavam de nós?
A liberdade sugerida por Dora não está em abandonar tudo em busca de uma felicidade idealizada, mas em reconhecer que também existimos quando ninguém depende de nós. Por baixo das identidades de mãe, mulher, profissional, cuidadora ou guardiã das memórias alheias, existe uma pessoa que ainda deseja.
O monólogo concentra, em uma única mulher, uma questão universal: quanto daquilo que chamamos de personalidade é, na verdade, hábito? Quantas certezas são histórias repetidas tantas vezes que acabaram parecendo verdades?
Dora não propõe começar do zero, porque ninguém começa do zero. Propõe começar do lugar em que se está, levando consigo o que foi amado, o que doeu, o que deu errado e aquilo que ainda não conseguimos perdoar.
Uma história não termina porque aprendemos a contá-la de determinada maneira. Às vezes, o capítulo mais importante começa quando acreditamos que já não há mais nada a dizer.
Dora: Quando a vida que vivemos deixa de caber na história que contamos



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