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Gente de Classe e o presente que se passa por futuro

Por Paulo Sales


Gente de Classe, do Grupo Carmin, dirigido por Quitéria Kelly, desloca para 2040 uma realidade que não depende do futuro para causar estranhamento. O condomínio Nova Canaã funciona menos como previsão tecnológica e mais como uma lupa sobre comportamentos já presentes: a busca por segurança, a administração da aparência, a distinção social, a meritocracia, a instrumentalização da religião e a transformação da vida privada em espaço de vigilância e desempenho. O futuro serve, assim, para retirar do presente sua aparência de normalidade.


Nova Canaã é confortável, organizado e protegido, mas sua segurança depende da exclusão. O muro materializa a distinção entre quem pertence e quem é visto como ameaça. A tentativa de criar um espaço autossuficiente revela justamente sua dependência do mundo exterior: a desigualdade não desaparece atrás do portão, apenas deixa de ser percebida por quem está protegido. A segurança produz vigilância; a tecnologia, avaliação; e a organização do cotidiano transforma a existência em desempenho.


Inteligência artificial, rankings, likes, recompensas e gamificação não são apresentados simplesmente como vilões. Eles ampliam uma lógica social anterior: medir, comparar e classificar. Quando tudo pode ser quantificado, pode também ser hierarquizado, e viver passa a se parecer com uma competição permanente. A própria casa funciona como uma interface dessa sociedade, na qual não basta estar bem ou pertencer: é preciso parecer bem e exibir os sinais de pertencimento. Como em um feed de rede social, Nova Canaã administra aquilo que pode ser visto, produzindo uma aparência de perfeição que não elimina os conflitos, apenas os controla.


É nesse contexto que o título Gente de Classe ganha sua ambiguidade. Ter “classe” pode significar dominar códigos de educação e civilidade, mas boas maneiras não garantem consciência social. A exclusão pode aparecer não como violência explícita, mas como “segurança”, “perfil”, “prudência” ou “merecimento”. A linguagem suaviza a relação de poder sem eliminá-la.

A meritocracia surge como uma narrativa incompleta. Esforço, competência e conquistas individuais existem, mas se tornam problemáticos quando passam a explicar sozinhos posições sociais que também dependem de condições históricas, econômicas e políticas. A referência a Jessé Souza ajuda a perceber como o privilégio pode ser interpretado como resultado exclusivamente individual. Assim, a desigualdade deixa de parecer estrutural e passa a ser vista como consequência natural das escolhas de cada pessoa. A peça dramatiza justamente essa transformação de estruturas sociais em biografias.


Em diálogo com A Invenção do Nordeste, o espetáculo investiga identidades construídas socialmente. Se a obra anterior examina imagens atribuídas a uma região e seus habitantes, Gente de Classe concentra-se na autoimagem construída por determinado grupo. A classe média retratada precisa acreditar que sua posição é legítima e recorre a ideias como educação, esforço, competência, responsabilidade familiar e empreendedorismo. Nenhuma delas é falsa por si só; o problema está quando passam a funcionar como explicação total.


A personagem da mãe solo introduz uma contradição importante: privilégio e vulnerabilidade podem coexistir. Uma pessoa pode ser protegida por determinadas estruturas e prejudicada por outras. Essa complexidade impede uma leitura binária dos personagens e também desloca para o centro político aquilo que costuma ser tratado como privado: cuidado, filhos, casa e reprodução cotidiana da vida. A casa, nesse sentido, não está fora da política; é um dos lugares onde relações de poder se transformam em hábito.


A religião participa de processo semelhante. O nome Nova Canaã remete a um imaginário de promessa, pertencimento e território protegido, mas a questão não é a fé em si, e sim sua instrumentalização política. Religião, família, segurança, consumo e mérito podem se articular na construção de uma visão de mundo em que preservar a ordem existente parece equivalente a proteger a própria família. Surge, então, o paradoxo do condomínio: seus habitantes parecem protegidos porque têm medo, e têm medo porque precisam acreditar que existe algo a ser protegido.


A pandemia acrescenta outra camada à leitura. Depois de experiências concretas de isolamento, vigilância, medo e dependência tecnológica, algumas imagens do espetáculo deixaram de parecer exclusivamente futuristas. Ainda assim, a pandemia não “prova” sua tese; apenas torna mais reconhecíveis condições que antes pertenciam ao imaginário da ficção.


Gente de Classe

Um dos principais riscos da sátira está justamente na possibilidade de o espectador enxergar o condomínio como o lugar dos outros. É fácil rir da obsessão por status e condenar o conservadorismo dos personagens, saindo do teatro com a sensação de superioridade. Nesse caso, a peça poderia substituir uma fronteira por outra: entre personagens alienados e espectadores esclarecidos. Sua força aumenta quando Nova Canaã funciona como espelho e leva o público a perguntar onde existem pequenas versões desse condomínio em sua própria experiência.


O humor, a música, a coreografia, a artificialidade e o absurdo evitam que a montagem se transforme em sermão. O riso cria distância, mas também pode devolvê-la ao espectador. Os corpos automatizados reforçam essa ideia ao sugerir que até a felicidade pode ser submetida a padrões de desempenho. A tecnologia não apenas observa: oferece modelos de comportamento, define o que deve ser valorizado e transforma a vigilância externa em autocontrole.


O espetáculo, porém, trabalha com limites que precisam ser reconhecidos. Seu condomínio representa um recorte específico de classe média urbana, escolarizada e relativamente confortável, não a totalidade da classe média brasileira. Diferenças raciais, regionais, geracionais, profissionais e econômicas produzem experiências distintas de privilégio e pertencimento. Da mesma forma, a tecnologia não é, por natureza, instrumento de controle: ela também pode ampliar autonomia e participação. O interesse da peça está em mostrar como ferramentas tecnológicas podem acelerar relações sociais que já existiam. O mesmo vale para a meritocracia: questioná-la como explicação suficiente da desigualdade não significa negar a importância do esforço individual.


No centro de tudo está a transformação de estruturas sociais em histórias pessoais. O indivíduo olha para sua casa, seu trabalho, seus filhos, seu consumo e sua segurança e enxerga escolhas; o que desaparece é a rede social que tornou essas escolhas possíveis. O privilégio funciona melhor quando não precisa ser percebido como privilégio.


Por isso, 2040 é quase uma distração produtiva. Não importa se aquela sociedade surgirá exatamente daquela maneira. Basta reconhecer seus componentes. A tecnologia e os dispositivos mudarão, assim como os nomes dos mecanismos de distinção, mas permanece a pergunta sobre como desigualdades sobrevivem não apenas pela força, mas por parecerem naturais, razoáveis e moralmente justificáveis.


Gente de Classe encontra seu núcleo político nessa combinação. A peça não examina apenas o que seus personagens possuem, mas as histórias que contam para justificar o que possuem; não apenas a segurança, mas o medo que sustenta sua expansão; não apenas o consumo, mas sua função na fabricação do pertencimento; não a religião em si, mas sua instrumentalização; e não a tecnologia isoladamente, mas sua capacidade de incorporar e acelerar relações sociais anteriores.


Nova Canaã é, portanto, uma ficção espacial antes de ser temporal. Seu futuro importa porque desloca alguns centímetros o presente e torna visível aquilo que, observado de dentro, parecia apenas decoração. O verdadeiro teste está em saber se o muro permanece apenas no palco ou se o público reconhece suas próprias fronteiras: nos hábitos, desejos, medos, palavras e critérios usados para decidir quem merece confiança, reconhecimento e pertencimento.


A peça não precisa prever o futuro. Basta retirar do presente a desculpa de parecer normal. Talvez essa seja sua imagem mais perturbadora: o muro pode cair sem que a fronteira desapareça. Ela pode continuar dentro dos personagens, nas formas de controle e nas pessoas que decidem quem merece pertencer. Ninguém precisa se considerar opressor para participar de uma estrutura de exclusão. Às vezes, basta acreditar que a ordem que o protege é apenas a ordem natural das coisas.


SERVIÇO


“Gente de Classe”

 

Temporada: até 23 de agosto de 2026

Horário: Quinta e Sexta-feira, às 19h; Sábado e Domingo, às 17h

Ingressos: R$ 20 (meia-entrada) / R$ 40 (inteira)

 

Local: Teatro Firjan Sesi Centro

Endereço: Av. Graça Aranha, nº 1 – Centro – Rio de Janeiro

 

Classificação Indicativa: 16 anos

Duração: 60 minutos


Gente de Classe e o presente que se passa por futuro

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