A esquerda que não teme dizer seu nome: Safatle escreve o epitáfio da esquerda com sangue seco, esperanças recicladas e um megafone quebrado | Livro
- circuitogeral
- 14 de jul.
- 3 min de leitura
Um fósforo em um depósito de pólvora

A esquerda que não teme dizer seu nome: Safatle escreve o epitáfio da esquerda com sangue seco, esperanças recicladas e um megafone quebrado | Livro
Em um país onde a esquerda é frequentemente acusada de ser envergonhada de si mesma — e onde a direita parece ter orgulho de qualquer coisa, mesmo das mais grotescas —, Vladimir Safatle lança novamente A esquerda que não teme dizer seu nome, como quem acende um fósforo em um depósito de pólvora. Não se trata de uma simples reedição: é, como o próprio autor faz questão de destacar, um outro livro. O mesmo título, talvez. Mas um novo gesto.
Há algo quase teatral no movimento de Safatle. Um filósofo que escreve como se estivesse no palanque de um levante que ainda não começou, mas que ele insiste em anunciar. E talvez seja exatamente isso que torna o livro tão incômodo — e tão fascinante: sua recusa em aceitar a normalidade como ponto de partida. Ele escreve como quem acredita que o colapso não é uma ameaça no horizonte, mas uma condição presente, cotidiana. E, nesse cenário, não cabe administrar: é preciso derrubar.
A esquerda, segundo Safatle, morreu. Não como corpo físico, mas como espírito político. Morreu quando se tornou moderada demais para ser revolucionária e revolucionária demais para ser confiável aos olhos das instituições. Morreu quando passou a preferir a gestão à transformação, a governabilidade ao conflito. Mas o livro não é um obituário — é uma tentativa de ressurreição. E como toda tentativa de ressurreição, carrega um quê de delírio, outro de fé, e muito de raiva.
Safatle não escreve para agradar. Tampouco para convencer. Escreve como quem lança uma provocação em praça pública e, de olhos fechados, espera que alguém a apanhe no ar — talvez um jovem militante, talvez um velho comunista, talvez ninguém. Sua crítica à esquerda institucionalizada, domesticada pelas engrenagens do sistema, é tão feroz que, por vezes, soa mais dura do que aquela vinda da direita. E há algo de profundamente inquietante nisso: quando o ataque ao status quo vem tanto da extrema direita quanto da esquerda mais radical, onde exatamente repousa a sensatez?
O filósofo percorre territórios de crise como um arqueólogo da revolta. Das ruas do Cairo às assembleias de Santiago, das praças europeias aos becos de São Paulo. Em cada parada, colhe fragmentos de insurreição — pedaços de um mundo que ainda não foi possível, mas que insiste em assombrar o presente. Safatle está à procura do sujeito revolucionário. Ele não o encontra, mas escreve como se o chamasse de volta. Como quem ergue, página após página, um altar para o impossível.
Não é fácil seguir Safatle em sua jornada. O texto exige paciência, atenção e um certo desprendimento do agora. Por vezes, parece que ele fala menos com o leitor e mais com os fantasmas de 1968. Em outros momentos, fala direto ao coração dos que perderam a fé na democracia liberal, mas ainda não se renderam ao cinismo tecnocrático. Nessa ambivalência, há beleza — e também perigo.
A crítica que o livro propõe é, em última instância, à própria ideia de acomodação. E isso o coloca numa posição curiosa: ao mesmo tempo em que denuncia a direita reacionária, também rejeita a esquerda governista, o progressismo de boutique, a política de hashtags. Por isso, pode ser lido tanto como um grito de guerra quanto como um epitáfio. A depender do leitor, será ambos.
Ao fim, Safatle não nos entrega soluções. Não nos promete futuro. Mas nos obriga a encarar o presente com um tipo de lucidez que arde. Em tempos de opiniões rasas e certezas rápidas, um livro que convida ao pensamento incômodo já é, por si, um ato de resistência.
Talvez não seja um livro para ser amado. Mas, sem dúvida, é um livro que se faz necessário ser lido. Com raiva. Com cuidado. Com coragem.

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