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ArtRio 2026: 18 de Setembro - O que quatro artistas revelam sobre corpo, matéria e imaginação

19 de set.
9 min de leitura

POR PAULO SALES / MAURO SENNA


Saímos da ArtRio, no terceiro dia, com a sensação incômoda de quem passou horas diante de coisas que não sabe explicar e, ainda assim, fomos profundamente afetados por elas. Entramos na feira com a disposição civilizada de quem pretendia observar, formar opiniões, guardar algumas imagens. Saímos percebendo que a arte raramente respeita o plano de quem olha.


Na Marina da Glória, entre galerias, conversas, lançamentos e pessoas circulando com a naturalidade possível diante de obras que custam mais do que muitas vidas inteiras conseguem juntar, o que mais nos interessou foi justamente aquilo que nós não haviamos planejado procurar: a matéria.

A pintura de Ivald Granato nos atingiu primeiro. Seu corpo não parece propriamente um corpo. Braços, pernas, cabeça e tronco se misturam, se atropelam, parecem tentar escapar uns dos outros. Não existe uma anatomia obediente, pronta para ser reconhecida. Existe movimento.


Ficamos pensando no quanto passamos a vida tentando fazer o contrário. Organizamos o corpo, a carreira, os afetos, a imagem que oferecemos aos outros. Construímos uma versão de nós mesmos que possa ser compreendida sem muito esforço. Granato nos fez lembrar que talvez aquilo que existe de mais verdadeiro em nós seja justamente o que não permanece dentro das linhas.


Ivald Granato

Depois encontramos João Carlos Galvão, e a experiência mudou. Módulos, preto, azul, repetição, construção. À primeira vista, uma estrutura quase simples. Permanecemos diante dela por mais tempo e percebiemos que a simplicidade era enganosa.


A inclinação de um bloco alterava a sombra. A sombra modificava o volume. O volume transformava a parede inteira. Um pequeno deslocamento era suficiente para reorganizar o conjunto.


Pensamos em como insistimos em acreditar que são as grandes decisões que determinam uma vida. O casamento, o divórcio, a mudança de cidade, o emprego aceito ou recusado. Galvão nos levou para outro lugar: o das pequenas inclinações.


Uma mensagem que não respondemos. Um telefonema adiado. Uma gentileza que deixamos de oferecer porque estávamos cansados. Uma palavra dita sem pensar. Gestos aparentemente insignificantes que, acumulados, acabam projetando sombras maiores do que imaginávamos.


João Carlos Galvão

Com Julio Villani, nós rimos. E gostamos quando uma obra consegue nos fazer rir, porque o humor desmonta a nossa pose. Diante dele, ficamos menos preparados para parecer inteligentes. As esculturas parecem criaturas inventadas a partir de objetos que perderam a obrigação de cumprir a função para a qual foram fabricados.


A imaginação talvez tenha justamente essa capacidade: pegar aquilo que conhecemos e devolvê-lo irreconhecível. Villani junta elementos que, em princípio, não deveriam estar juntos e cria uma lógica própria para essa combinação.


Pensamos nas pessoas. Passamos uma quantidade absurda de tempo tentando defini-las. Fulano é assim. Beltrana é assado. Como se alguém pudesse ser reduzido à profissão, ao casamento, à roupa, ao temperamento ou ao papel que desempenha diante dos outros.


Talvez o estranho seja apenas aquilo que ainda não aprendemos a enxergar sem a necessidade de classificá-lo.


Julio Villani

Então veio Leo Battistelli, com uma matéria azul que nos pareceu ao mesmo tempo orgânica, mineral e marítima. Diante de suas formas, a palavra cerâmica pareceu pequena.


Ficamos olhando para as superfícies e pensando que a matéria também guarda memória. A irregularidade registra o processo. A marca permanece. O acaso interfere. O que poderia ser corrigido passa a fazer parte da obra.

Isso nos atingiu de maneira particularmente íntima.


Passamos boa parte da vida tentando esconder aquilo que consideramos mal acabado em nós. Como se fosse possível apresentar aos outros apenas a superfície já corrigida, polida, definitiva. Diante daquelas formas, percebemos novamente que a marca não precisa ser eliminada para que alguma coisa adquira beleza. Às vezes, é justamente ela que impede a obra de ser indiferente.


Leo Battistelli

A partir dali, a visita deixou de ser apenas uma visita.


Granato nos fez pensar no corpo. Galvão, na estrutura. Villani, na imaginação. Battistelli, nas marcas que permanecem.


Quatro artistas, quatro experiências distintas, e uma mesma inquietação atravessando o nosso olhar: a dificuldade de caber inteiramente naquilo que esperam de nós.


Uma feira de arte é, antes de qualquer coisa, um mercado. Obras circulam, são compradas, vendidas, avaliadas. Existem preços, nomes, prestígio, desejo de posse. Existem pessoas olhando etiquetas e pessoas observando as pessoas que olham etiquetas.


E, ainda assim, no meio de toda essa engrenagem, a arte pode escapar.

Escapa do preço. Da legenda. Da intenção original. Até mesmo do artista.

Uma obra é colocada diante de alguém e, durante alguns instantes, deixa de pertencer completamente a quem a produziu. Passa a existir dentro da experiência de quem olha.

Foi isso que nos interessou no terceiro dia da ArtRio. Não uma tendência, uma escola ou uma resposta sobre o que deve ser a arte contemporânea. O que nos interessou foi justamente a ausência de uma resposta definitiva.

Granato não precisa conversar com Galvão. Galvão não precisa concordar com Villani. Villani não precisa explicar Battistelli. Eles podem simplesmente existir lado a lado.


Passamos tempo demais tentando resolver nossas próprias contradições. Queremos coerência permanente, quando a experiência humana é feita de mudanças de tom. Podemos ser impulsivos pela manhã e metódicos à tarde. Podemos tratar uma questão com extrema seriedade e, diante de outra, agir como crianças. Podemos controlar tudo durante uma semana e, no dia seguinte, entregar-nos completamente ao acaso.


Saímos da ArtRio sem uma conclusão sobre a arte contemporânea e sem a sensação de ter entendido tudo o que vimos. Saímos com alguma coisa mais difícil de medir: olhar deslocado.


Depois de certa idade, isso nos parece uma conquista considerável. Mudar a maneira como enxergamos alguma coisa, ainda que por alguns minutos, já é uma forma de mudança.


E a arte, quando consegue isso, não precisa explicar mais nada.


ArtRio 2026: 17 de Setembro - No segundo dia, transforma excesso em experiência


A ArtRio e o seu segundo dia de grande desfile de arte contemporânea, mercado, colecionismo e gente elegantemente interessada em parecer desinteressada. A Marina da Glória se transforma por alguns dias numa espécie de parque de diversões para quem compra arte, vende arte, escreve sobre arte ou simplesmente gosta de dizer que determinada coisa “provoca uma reflexão”.


Mas seria injusto reduzir a feira ao comércio. O que interessa é observar como as obras sobrevivem, ou não, dentro dessa máquina de circulação acelerada. O visitante caminha entre estandes, atravessa linguagens, encontra uma escultura, uma pintura, um corpo, uma sombra, uma instalação e, antes de conseguir pensar sobre aquilo, já está diante de outra obra. A ArtRio exige olhos rápidos num território que pede contemplação.

É nesse ambiente que

Giovani Caramello chama atenção pelo modo como aproxima corpo e objeto. Seu trabalho não deixa o espectador confortavelmente instalado na posição de quem observa de fora. A presença corporal interfere na escala e altera a leitura. O corpo deixa de ser apenas referência e passa a funcionar como elemento ativo da experiência.


Giovani Caramello

Iole de Freitas trabalha em outra frequência. Suas formas curvas, coloridas e tridimensionais avançam sobre a parede e produzem sombras que prolongam a obra. O resultado tem movimento mesmo quando permanece fisicamente imóvel. A parede, coitada, perde a condição de simples suporte e vira parceira involuntária da instalação.


Iole não precisa ocupar todo o espaço para dominá-lo. Basta uma curva, uma distância e uma sombra para criar uma situação em que o espectador percebe que a arquitetura também está participando. A obra não fica confinada àquilo que tem matéria. Ela continua na projeção, no intervalo e no deslocamento de quem a observa.


Iole de Freitas

Com Ito Bindery, a conversa muda novamente. Seus volumes geométricos aparecem quase como uma provocação à inflação visual da própria feira. Poucos elementos, pouca ornamentação, muito espaço entre eles. A economia formal exige do visitante aquilo que eventos desse tipo menos favorecem: tempo.


Diante de uma obra assim, não há narrativa para consumir rapidamente nem espetáculo para fotografar em cinco segundos. O olhar precisa lidar com proporção, distância, equilíbrio e vazio. A simplicidade deixa de ser facilidade e passa a ser exigência. Quanto menos a obra oferece como distração, mais ela devolve ao espectador a tarefa de construir sua própria experiência.


 Ito Bindery

Na Galeria Movimento, a diversidade de materiais e linguagens amplia esse confronto entre diferentes modos de produzir imagem e objeto. O estande funciona como uma pequena amostra da pluralidade que caracteriza a arte contemporânea brasileira, mas também evidencia uma dificuldade própria das feiras: obras muito diferentes precisam disputar atenção dentro de um mesmo espaço e sob uma mesma lógica de exposição.


Galeria Movimento

A consequência é curiosa. Algumas obras parecem ganhar energia com a vizinhança. Outras perdem parte da força porque precisam competir com o trabalho instalado ao lado. A feira cria encontros que uma exposição convencional dificilmente produziria, mas cobra um preço: a concentração.

Esse excesso é parte da experiência da ArtRio. Não adianta reclamar da quantidade quando a própria natureza do evento depende dela. A questão crítica está em perceber o que permanece depois que o espetáculo visual diminui.


Enquanto a feira corre atrás da novidade, algumas obras preferem não correr. Enquanto o mercado gosta de números, elas insistem em formas. Enquanto o visitante fotografa, elas continuam ali, indiferentes ao celular.


A visita de hoje deixa uma impressão clara: a vitalidade da feira não está na quantidade de obras exibidas, mas na capacidade de algumas delas interromperem a velocidade do visitante. 


Entre mercado e contemplação, entre pose e presença, entre o objeto que pede compra e a obra que exige atenção, a ArtRio continua sendo um lugar de contradições.


E ainda bem.


Arte excessivamente comportada dá sono.


ArtRio 2026: Dia 16 de Setembro - A beleza desconfortável de olhar para o que insiste em permanecer


O primeiro dia reuniu programação, encontros e obras suficientes para transformar a Marina em um território de estímulos sucessivos. O problema de uma feira de arte é justamente esse excesso. Tudo pede atenção ao mesmo tempo. Nada parece disposto a esperar.

Algumas obras, felizmente, resistem a essa lógica.


Ana Holck constrói estruturas que parecem ter escapado de algum instrumento de tortura particularmente elegante. As linhas curvas avançam pelo espaço, cruzam-se e produzem sombras que ampliam a própria arquitetura da obra. O metal deixa de ser apenas matéria e passa a desenhar o ambiente.


Ana Holck

Existe algo inquietante nessa leveza. As formas parecem delicadas, mas ocupam o espaço com uma autoridade quase hostil. Os vazios entre as linhas não funcionam como ausência. Eles organizam o olhar. O espectador percebe que até o nada pode ser cuidadosamente construído.


Ana Maria Tavares desloca o conflito para outro lugar. Sua superfície circular branca, atravessada por textos e acompanhada de uma área refletiva, devolve ao visitante aquilo que as obras costumam tentar esconder: sua própria presença.


Ana Maria Tavares

Diante dela, observar deixa de ser uma atividade confortável. O visitante aparece dentro do campo da obra e se torna parte do que está vendo. Em uma feira saturada de imagens, essa devolução possui uma crueldade discreta. Olhar já não basta. É preciso suportar ser olhado pela própria experiência.


André Komatsu trabalha com uma matéria menos educada. Sua superfície irregular, marcada por cortes, riscos e formas geométricas escuras, parece carregar as consequências de algum acontecimento que ninguém se preocupou em explicar.


André Komatsu

O desgaste não é disfarçado. Ele é preservado como linguagem. A matéria conserva suas feridas e, por isso, adquire uma espécie de memória física. A obra não oferece a tranquilidade de uma superfície impecável. Ela sugere que aquilo que foi destruído também pode se tornar estrutura.


Existe algo de arqueológico nessa operação. Não porque o trabalho pareça antigo, mas porque sua aparência produz a sensação de vestígio. Como se a obra tivesse sobrevivido a alguma coisa.


Antonio Bokel prefere mutilar a lógica do corpo. Pernas e pés em bronze sustentam uma estrutura geométrica que poderia pertencer a um móvel, a um fragmento arquitetônico ou a alguma invenção cuja função desapareceu antes de ser descoberta.


Antonio Bokel

O corpo, reduzido a suporte, perde sua autonomia. A arquitetura ganha carne. A combinação provoca um humor silencioso porque reconhecemos os elementos separadamente, mas não conseguimos devolvê-los a uma finalidade confortável.


A estranheza nasce da familiaridade deformada. É sempre mais perturbador reconhecer alguma coisa e perceber que ela deixou de obedecer às regras habituais.


A organização da própria ArtRio prolonga essa multiplicidade. Os pavilhões MAR e TERRA abrigam programas distintos, entre eles Panorama, Solo_Duo, Brasil Contemporâneo e Expansão. O Mira concentra a videoarte. Brasil Contemporâneo amplia a presença de diferentes regiões do país e aproxima a produção artística de práticas ligadas ao fazer manual.


A feira, portanto, não apresenta uma narrativa única. Apresenta um conjunto de fricções.


Isso é mais interessante do que uma exposição obediente a uma tese central. A arte contemporânea não precisa parecer coerente para ser relevante. Às vezes, sua coerência está justamente na recusa de oferecer conforto intelectual.


A programação do primeiro dia reforça essa disposição. A mesa sobre a potência do feminino na arte, o Prêmio FOCO ArtRio, a instalação-performance Manicure Política, de Lyz Parayzo, e a performance Minha cabeça é meu guia, de André Vargas ampliam o evento para além da contemplação silenciosa.


A feira deixa de ser apenas um lugar onde objetos são observados. O corpo entra em cena, a política entra em cena, a performance entra em cena. O espectador perde o privilégio de permanecer completamente imóvel.


Isso combina com a natureza de uma feira de arte. O visitante circula, compara, escolhe, ignora, retorna. Seu olhar é submetido a uma sucessão quase cruel de decisões. Algumas obras desaparecem em segundos. Outras permanecem como uma pequena perturbação impossível de expulsar.


As melhores experiências do primeiro dia parecem nascer dessa segunda categoria.


Holck transforma o espaço em desenho. Tavares transforma o observador em elemento da obra. Komatsu faz da matéria um arquivo de agressões. Bokel converte o corpo em arquitetura. Nenhuma dessas operações depende apenas do impacto visual. Todas exigem algum tempo para que a aparência deixe de ser suficiente.


Esse é o aspecto mais interessante da abertura. A ArtRio não parece pedir uma única interpretação para a produção contemporânea. Ela oferece um ambiente no qual diferentes concepções de matéria, corpo, espaço e percepção podem coexistir sem fingir que pertencem à mesma família.


Em uma feira, isso exige disciplina do visitante.


Olhar depressa é fácil. Entender demora mais.


A abertura da ArtRio 2026 apresenta justamente esse pequeno inconveniente: algumas obras não aceitam ser consumidas na velocidade de um corredor cheio de gente. Elas exigem permanência. Exigem silêncio.


Exigem que o visitante suspenda por alguns minutos a necessidade bastante contemporânea de passar para a próxima coisa.


A Marina da Glória estava cheia de arte. O que nem sempre é a mesma coisa que estar cheia de atenção.


As obras que sobrevivem ao ruído são aquelas que conseguem produzir uma espécie de desconforto depois que já foram vistas. Não precisam gritar. Basta permanecerem.


FOTOS:MASENNA/PSALES

ArtRio 2026: 18 de Setembro - O que quatro artistas revelam sobre corpo, matéria e imaginação


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