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ArtRio 2026: Dia 16 de Setembro - A beleza desconfortável de olhar para o que insiste em permanecer

há 7 horas
4 min de leitura

POR PAULO SALES


O primeiro dia reuniu programação, encontros e obras suficientes para transformar a Marina em um território de estímulos sucessivos. O problema de uma feira de arte é justamente esse excesso. Tudo pede atenção ao mesmo tempo. Nada parece disposto a esperar.

Algumas obras, felizmente, resistem a essa lógica.


Ana Holck constrói estruturas que parecem ter escapado de algum instrumento de tortura particularmente elegante. As linhas curvas avançam pelo espaço, cruzam-se e produzem sombras que ampliam a própria arquitetura da obra. O metal deixa de ser apenas matéria e passa a desenhar o ambiente.


Ana Holck

Existe algo inquietante nessa leveza. As formas parecem delicadas, mas ocupam o espaço com uma autoridade quase hostil. Os vazios entre as linhas não funcionam como ausência. Eles organizam o olhar. O espectador percebe que até o nada pode ser cuidadosamente construído.


Ana Maria Tavares desloca o conflito para outro lugar. Sua superfície circular branca, atravessada por textos e acompanhada de uma área refletiva, devolve ao visitante aquilo que as obras costumam tentar esconder: sua própria presença.


Ana Maria Tavares

Diante dela, observar deixa de ser uma atividade confortável. O visitante aparece dentro do campo da obra e se torna parte do que está vendo. Em uma feira saturada de imagens, essa devolução possui uma crueldade discreta. Olhar já não basta. É preciso suportar ser olhado pela própria experiência.


André Komatsu trabalha com uma matéria menos educada. Sua superfície irregular, marcada por cortes, riscos e formas geométricas escuras, parece carregar as consequências de algum acontecimento que ninguém se preocupou em explicar.


André Komatsu

O desgaste não é disfarçado. Ele é preservado como linguagem. A matéria conserva suas feridas e, por isso, adquire uma espécie de memória física. A obra não oferece a tranquilidade de uma superfície impecável. Ela sugere que aquilo que foi destruído também pode se tornar estrutura.


Existe algo de arqueológico nessa operação. Não porque o trabalho pareça antigo, mas porque sua aparência produz a sensação de vestígio. Como se a obra tivesse sobrevivido a alguma coisa.


Antonio Bokel prefere mutilar a lógica do corpo. Pernas e pés em bronze sustentam uma estrutura geométrica que poderia pertencer a um móvel, a um fragmento arquitetônico ou a alguma invenção cuja função desapareceu antes de ser descoberta.


Antonio Bokel

O corpo, reduzido a suporte, perde sua autonomia. A arquitetura ganha carne. A combinação provoca um humor silencioso porque reconhecemos os elementos separadamente, mas não conseguimos devolvê-los a uma finalidade confortável.


A estranheza nasce da familiaridade deformada. É sempre mais perturbador reconhecer alguma coisa e perceber que ela deixou de obedecer às regras habituais.


A organização da própria ArtRio prolonga essa multiplicidade. Os pavilhões MAR e TERRA abrigam programas distintos, entre eles Panorama, Solo_Duo, Brasil Contemporâneo e Expansão. O Mira concentra a videoarte. Brasil Contemporâneo amplia a presença de diferentes regiões do país e aproxima a produção artística de práticas ligadas ao fazer manual.


A feira, portanto, não apresenta uma narrativa única. Apresenta um conjunto de fricções.


Isso é mais interessante do que uma exposição obediente a uma tese central. A arte contemporânea não precisa parecer coerente para ser relevante. Às vezes, sua coerência está justamente na recusa de oferecer conforto intelectual.


A programação do primeiro dia reforça essa disposição. A mesa sobre a potência do feminino na arte, o Prêmio FOCO ArtRio, a instalação-performance Manicure Política, de Lyz Parayzo, e a performance Minha cabeça é meu guia, de André Vargas ampliam o evento para além da contemplação silenciosa.


A feira deixa de ser apenas um lugar onde objetos são observados. O corpo entra em cena, a política entra em cena, a performance entra em cena. O espectador perde o privilégio de permanecer completamente imóvel.


Isso combina com a natureza de uma feira de arte. O visitante circula, compara, escolhe, ignora, retorna. Seu olhar é submetido a uma sucessão quase cruel de decisões. Algumas obras desaparecem em segundos. Outras permanecem como uma pequena perturbação impossível de expulsar.


As melhores experiências do primeiro dia parecem nascer dessa segunda categoria.


Holck transforma o espaço em desenho. Tavares transforma o observador em elemento da obra. Komatsu faz da matéria um arquivo de agressões. Bokel converte o corpo em arquitetura. Nenhuma dessas operações depende apenas do impacto visual. Todas exigem algum tempo para que a aparência deixe de ser suficiente.


Esse é o aspecto mais interessante da abertura. A ArtRio não parece pedir uma única interpretação para a produção contemporânea. Ela oferece um ambiente no qual diferentes concepções de matéria, corpo, espaço e percepção podem coexistir sem fingir que pertencem à mesma família.


Em uma feira, isso exige disciplina do visitante.


Olhar depressa é fácil. Entender demora mais.


A abertura da ArtRio 2026 apresenta justamente esse pequeno inconveniente: algumas obras não aceitam ser consumidas na velocidade de um corredor cheio de gente. Elas exigem permanência. Exigem silêncio.


Exigem que o visitante suspenda por alguns minutos a necessidade bastante contemporânea de passar para a próxima coisa.


A Marina da Glória estava cheia de arte. O que nem sempre é a mesma coisa que estar cheia de atenção.


As obras que sobrevivem ao ruído são aquelas que conseguem produzir uma espécie de desconforto depois que já foram vistas. Não precisam gritar. Basta permanecerem.


FOTOS:MASENNA

ArtRio 2026: Dia 16 de Setembro - A beleza desconfortável de olhar para o que insiste em permanecer


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