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Simples Assim: Um caleidoscópio de afetos, neuroses e contradições contemporâneas

há 11 minutos
3 min de leitura

“Simples Assim”, espetáculo baseado nas crônicas de Martha Medeiros, aborda aspectos da vida contemporânea, como a solidão tecnológica, os afetos fragilizados, as dificuldades de comunicação e os relacionamentos mediados por recursos digitais. A proposta é transformar situações e conflitos presentes nas crônicas em uma representação teatral das contradições e neuroses da sociedade atual. A ideia é pertinente e apresenta potencial, mas sua realização nem sempre alcança a mesma força da proposta inicial.


A montagem reúne dez cenas inspiradas em aproximadamente 200 crônicas e conta com Alexandra Richter, Georgiana Góes e Pedroca Monteiro, que se revezam entre diferentes personagens e situações. Estruturada a partir de um mecanismo semelhante ao de “A Ronda”, de Arthur Schnitzler, a peça apresenta relações sucessivas em que personagens e histórias se conectam, formando um retrato fragmentado das experiências humanas. Em vez de desenvolver uma única narrativa, o espetáculo constrói um conjunto de situações relacionadas a amor, solidão, tecnologia, desejo, amizade, família, escolhas, frustrações, passagem do tempo e desconexão.


A peça alcança maior força quando apresenta diretamente os absurdos do cotidiano, sem tentar explicá-los de maneira excessiva. Situações como um casal que utiliza o celular para se comunicar mesmo estando fisicamente próximo, uma mulher que contrata uma substituta para viver sua própria vida ou uma jovem que decide partir para Marte e abandonar o amante revelam, por meio do humor e do exagero, comportamentos que podem ser reconhecidos na experiência contemporânea.


Entretanto, o espetáculo perde parte dessa força quando explicita demais a reflexão que pretende produzir. Em alguns momentos, parece indicar ao espectador qual interpretação deve ser extraída de cada situação, como se fosse necessário explicar que aquelas cenas representam problemas da sociedade contemporânea. Essa característica contrasta com uma das principais qualidades das crônicas de Martha Medeiros, que consiste em partir de situações cotidianas para alcançar questões mais amplas sem precisar enfatizar excessivamente a conclusão. Quando o texto confia na capacidade do espectador de estabelecer suas próprias relações, a narrativa se torna mais espontânea; quando entrega a reflexão de forma excessivamente direta, perde parte dessa naturalidade.


Simples Assim

O tema central da peça está relacionado à dificuldade de estabelecer relações genuínas em uma sociedade que dispõe de inúmeros recursos para facilitar a comunicação. Embora incentive a conversa, a escuta, o contato visual, a demonstração de afeto e a desaceleração, o espetáculo evidencia uma contradição característica do presente: as pessoas estão cercadas por aplicativos, redes sociais e meios de comunicação, mas continuam enfrentando dificuldades para estabelecer vínculos verdadeiramente significativos. Existe, portanto, uma situação de hiperconectividade acompanhada, paradoxalmente, por distanciamento emocional.


O elenco contribui para a construção desse retrato múltiplo das relações humanas. A constante transformação dos atores em diferentes personagens cria um efeito de caleidoscópio, no qual cada situação apresenta apenas uma parte da experiência humana. A proposta não é acompanhar uma única trajetória, mas reconhecer, em diferentes histórias, fragmentos de experiências que fazem parte da vida cotidiana.


Nesse sentido, o espetáculo ultrapassa a função de entretenimento ao colocar o espectador diante de suas próprias contradições. “Simples Assim” não procura solucionar os problemas da existência nem apresentar uma fórmula para uma vida melhor. Sua contribuição está em observar as confusões, limitações e contradições das relações contemporâneas e questionar o que ainda permanece de humano em meio a elas.


A principal conclusão do espetáculo é que a vida, apesar do desejo de simplificação, não é simples. As pessoas desejam relações profundas sem necessariamente aceitar a vulnerabilidade, buscam companhia sem abrir mão de concessões, desejam liberdade sem assumir suas consequências e esperam utilizar a tecnologia sem se tornar dependentes dela. Da mesma forma, amar, estabelecer vínculos e compreender a própria existência envolvem complexidades que não podem ser reduzidas a fórmulas.


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