As paredes sabem demais: por que a exposição “hoje, eu contei pras paredes”, de Mário Camargo, incomoda
- circuitogeral

- há 7 minutos
- 3 min de leitura
Neutralidade costuma ser um luxo de parede branca

As paredes sabem demais: por que a exposição “hoje, eu contei pras paredes”, de Mário Camargo, incomoda
Não escrevo daqui como observadora neutra, até porque neutralidade costuma ser um luxo de parede branca. Sob o olhar de Mário Camargo, “hoje, eu contei pras paredes” não se apresenta como exposição: exige escuta. Não pede contemplação educada, dessas que cabem bem em visitas guiadas e textos de parede inofensivos. O que está em jogo aqui não é o que se vê, mas o que foi despejado. A parede deixa de ser o figurante obediente da história da arte e assume o papel que sempre teve, mas raramente se admite: o de cúmplice silenciosa. Não fala, não julga, mas sabe demais. E isso incomoda.
As paredes, essas entidades castas e funcionais como repartições públicas em horário comercial, viram corpos. Corpos saturados. Absorvem palavras como um colchão velho absorve suor, medo e noites que não rendem terapia suficiente. O que foi dito ali não evapora, como gostam de fingir os discursos sobre “processo” e “poética”. Infiltra. Fica. Mancha.
A exposição se move num território que me interessa porque não se deixa domesticar: o tempo não como abstração elegante, mas como ferrugem. Como mofo. Como algo que corrói enquanto todo mundo finge que é pátina. O tempo aqui não passa, ele se instala, ocupa espaço e cobra aluguel. Falar com as paredes é patético? Sem dúvida. Mas também é profundamente humano. É o recurso final de quem precisa existir quando já não há plateia, curador ou algoritmo disponível. As paredes não respondem, mas fazem algo pior, ou melhor: lembram. São arquivos emocionais sem backup e sem botão de apagar.
O espaço expositivo funciona como um organismo hiperestimulado. Neutralidade zero. Cada obra vibra numa tensão constante entre o íntimo e o arquitetônico, entre o que foi confessado e o que foi convenientemente sustentado. Tudo é camada: de tinta, de tecido, de silêncio acumulado. O olhar não pode ser preguiçoso, desses que buscam rápido uma “chave de leitura” para parecer atento no vernissage. Precisa insistir. E aceitar que ouvir demais também é invasão.
Os materiais não parecem escolhidos. Parecem sobreviventes. Sofás exaustos, colchas que já abraçaram corpos, tecidos que carregam mais história do que muita autobiografia premiada. Pendem das paredes como peles arrancadas, presas por agulhas que não tentam disfarçar a violência do gesto. Não há moldura. Não há conforto. É uma arte que se recusa a ser decorativa, o que, convenhamos, já é uma posição política num circuito viciado em bom gosto.
A costura não vem para resolver nada. Não sutura, não pacifica, não “ressignifica”. É cicatriz aberta. Atravessa, insiste, expõe o estrago e se recusa a pedir desculpa. A pintura aparece depois, quase constrangida, como comentário tardio de quem chegou quando tudo já tinha sido dito. As cores são densas, físicas, menos sobre paleta e mais sobre peso.
Há um deslocamento decisivo: a palavra abdica do som e vira marca. Mesmo quando não está escrita, grita. Está na textura, no vazio estrategicamente construído. O que foi contado às paredes não se entrega de forma didática, felizmente. O não dito, aqui, trabalha melhor do que qualquer texto curatorial excessivamente seguro de si.
No fundo, “hoje, eu contei pras paredes” fala de resistência. Falar sem resposta é um ato radical num mundo obcecado por retorno, engajamento e validação. É continuar emitindo sinal mesmo quando não há receptor visível nem like garantido. As paredes, essas testemunhas imóveis, sustentam o peso das histórias como quem aguenta um segredo grande demais para o corpo e grande demais para virar discurso palatável.
Saio da exposição com a sensação incômoda de que o espaço agora sabe mais do que eu. E de que, ao atravessá-lo, tornei-me cúmplice desse sistema de escuta forçada. Talvez essa seja a maior ousadia da mostra: lembrar que toda superfície escuta e que a arte, quando para de fingir inocência, deixa claro que silêncio também é posição.
Serviço
Exposição: 'Hoje, eu contei pras paredes'
Artista: Mário Camargo
Curadoria: Denise Araripe
Visitação: até 04 de fevereiro de 2026
Local: Centro Cultural Cândido Mendes
Rua Joana Angélica, 63 - Ipanema - RJ
Dias e horários: de segunda a sábado, das 15h às 19h
Entrada franca
Censura livre








Comentários