Carga viva, de Ana Rüsche: A ficção diante da repetição da História
- circuitogeral

- há 11 minutos
- 5 min de leitura
Se alguém resolvesse resumir Carga viva em uma única frase, provavelmente acabaria escrevendo outro romance. Ana Rüsche reúne numa mesma narrativa a epidemia de HIV, a pandemia de covid, poesia, violência doméstica, negacionismo, crise climática, memória, desejo e uma misteriosa substância prateada que emerge no mar. Em mãos menos seguras, essa combinação produziria um livro com a harmonia de uma reunião de condomínio na qual todos decidem falar ao mesmo tempo. O surpreendente é que, apesar da quantidade de assuntos, ou talvez precisamente por causa dela, Carga viva raramente perde o controle.
A primeira metade da história nos transporta para 1985. Carlos Alberto, o Cacá, é um advogado paulista que conduz a vida com uma leveza quase irresponsável, até que uma tosse persistente evolui para escarros com sangue e converte o cotidiano num exercício de incerteza. Ao lado do namorado, o bailarino Félix, refugia-se numa casa de praia situada entre Ubatuba e Paraty, propriedade de Mark, um executivo alemão cuja vida privada se revela muito mais movimentada do que o cargo sugere. Casado com Gisela, Mark divide o tempo entre a respeitabilidade profissional e encontros casuais com outros homens, enquanto o Brasil atravessa o fim da ditadura, a redemocratização e a chegada silenciosa do HIV.
Mais de três décadas depois, o romance muda de cenário, mas preserva a sensação de que a História cultiva o péssimo hábito de trocar apenas os figurinos. Maria Inês enfrenta a pandemia de covid durante a gravidez, ao mesmo tempo em que vê o marido, Patrick, afundar no negacionismo, no machismo e na radicalização política. Ao redor dela gravitam a irmã Maria Gilda, cuja independência basta para irritar o cunhado, e Cida, tia-avó que funciona como um daqueles raros personagens capazes de oferecer abrigo sem recorrer a discursos. Nesse espelhamento entre duas épocas, Ana Rüsche encontra o eixo do romance, aproximando epidemias, crises políticas e conflitos íntimos sem reduzir nenhuma dessas relações à condição de mera alegoria.
A estrutura alterna capítulos curtos entre passado e presente, num daqueles movimentos que parecem simples até o leitor tentar imaginá-los no papel. É fácil afirmar que duas histórias dialogam. Bem mais difícil é fazê-las conversar sem reproduzir um debate televisivo em que ninguém escuta ninguém. Ana Rüsche alcança esse equilíbrio durante boa parte do livro porque evita unir seus dois tempos por meio de explicações didáticas. Primeiro cria ecos; somente depois revela as conexões.
O romance permanece firmemente ancorado no realismo até o surgimento de uma estranha mancha prateada flutuando sobre o mar. Cacá, febril e preocupado com a própria saúde, entra na água e encontra uma substância que parece emitir luz própria, exala um cheiro adocicado e provoca mudanças difíceis de explicar. A cena é construída com inteligência porque nunca soa como um truque destinado a surpreender o leitor. Ao contrário, altera discretamente as regras da narrativa e a desloca para um território em que ficção científica, realismo mágico e alegoria passam a coexistir sem disputar espaço entre si.
Mais tarde, essa mesma substância reaparece durante a pandemia de covid como um tratamento alternativo defendido por Maria Gilda. Chama a atenção o fato de que, num romance repleto de discussões sobre ciência e negacionismo, justamente o elemento mais fantástico da história seja tratado com mais serenidade do que muitas opiniões perfeitamente reais. Patrick, por exemplo, rejeita qualquer medida de prevenção como se disputasse um campeonato nacional de teorias conspiratórias. Torna-se um personagem tão obstinado em estar errado que quase desperta admiração pela consistência.
O problema aparece quando a poeta resolve emprestar à romancista algumas manias do ofício.
Há uma velha tentação literária de acreditar que qualquer frase melhora depois de receber mais uma metáfora. Nem sempre isso acontece. Em certas ocasiões, a frase apenas ganha volume, sem adquirir maior densidade.

Essa inclinação se manifesta sobretudo nos primeiros capítulos, quando a prosa parece ansiosa para demonstrar que também domina a linguagem da poesia. Surgem imagens excessivamente ornamentadas, passagens sentimentais e diálogos sobre a própria natureza do fazer poético que soam mais conscientes da própria beleza do que efetivamente necessários.
Felizmente, essa tendência perde força à medida que a narrativa avança. Aos poucos, Ana Rüsche demonstra maior confiança na consistência dos personagens e menor preocupação em revestir cada emoção com uma sucessão de imagens elaboradas. A linguagem continua poética, mas deixa de chamar atenção para si a todo instante. Em vez de disputar espaço com a narrativa, passa a acompanhar seu movimento.
Carga viva incorpora ainda a crise climática ao conjunto de questões que já vinha desenvolvendo. Em qualquer outro romance, isso poderia soar como um acréscimo excessivo. Aqui, curiosamente, essa nova camada reforça uma impressão que acompanha toda a leitura: Ana Rüsche parece menos interessada em contar duas histórias do que em investigar de que maneira diferentes formas de catástrofe atravessam gerações, modificam suas formas e permanecem atuantes mesmo quando parecem superadas.
A descoberta da substância prateada aproxima cientistas dos personagens centrais e conduz o romance para um desfecho que imagina alternativas à realidade antes de devolvê-la ao leitor por meio de uma tragédia ambiental facilmente reconhecível. Mesmo quando se afasta do registro histórico, a autora nunca rompe completamente esse vínculo. A fantasia funciona como hipótese, jamais como fuga.
As páginas finais, porém, revelam uma pequena desconfiança do próprio livro. Ao promover encontros entre personagens dos dois períodos e esclarecer relações que já haviam sido sugeridas com suficiente clareza, o romance explica um pouco mais do que precisava. O detalhe chama atenção porque, ao longo de toda a narrativa, Ana Rüsche demonstra grande confiança na inteligência do leitor. No momento de encerrar a história, contudo, parece recear que alguma conexão tenha passado despercebida.
Carga viva integra uma linhagem recente de romances brasileiros empenhados em compreender o presente por meio da revisitação de traumas que pareciam encerrados. A diferença é que Ana Rüsche nunca transforma a História num simples cenário ilustrativo. Epidemias, mudanças políticas, violência, degradação ambiental e relações afetivas não aparecem como temas independentes reunidos numa mesma obra. Todos participam de um mesmo organismo narrativo, no qual cada elemento altera o comportamento dos demais e amplia o sentido do conjunto.
Trata-se de um romance ambicioso, e obras dessa natureza quase nunca atravessam seus próprios desafios sem deixar marcas. Em alguns momentos, a linguagem se entrega ao excesso, determinadas ideias recebem explicações além do necessário e certos símbolos fazem questão de anunciar a própria importância. Ainda assim, esses desequilíbrios nascem de uma ambição criativa genuína. Decorrem da disposição de ampliar as possibilidades do romance, nunca da acomodação ou da timidez.
Ao concluir a leitura, permanece a impressão de que Ana Rüsche preferiu correr o risco do excesso ao conforto da medida exata. Essa escolha produz alguns desequilíbrios, mas também concentra os momentos mais fortes do livro. A literatura costuma se tornar mais interessante quando um escritor aceita o risco de fazer seu romance comportar mais do que parece possível, em vez de limitar a narrativa ao estritamente necessário.
Carga viva, de Ana Rüsche: A ficção diante da repetição da História




Comentários