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Crystal Lake: Gostei da Série. Não Preciso Adotar a Franquia Inteira

há 1 minuto
8 min de leitura

Nunca tive grande paciência para Sexta-Feira 13. O primeiro filme me parece fraco, e boa parte das continuações tem a imaginação de um funcionário público preenchendo formulário: alguém entra, alguém grita, alguém morre, o expediente termina. Décadas depois, ainda há quem trate essa repetição como patrimônio cultural. Tenho certo respeito pela devoção alheia, embora não consiga compreender por que tanta gente precisa transformar o próprio gosto em herança de família.


Comecei Crystal Lake sem entusiasmo. A franquia nunca me pareceu merecedora de tanta fidelidade, e a ideia de voltar ao lago para descobrir mais detalhes sobre pessoas que já passaram boa parte da existência cinematográfica morrendo não despertava em mim nenhuma urgência. Foi uma surpresa desagradável para o meu preconceito descobrir que a série era boa. Não excelente em todos os momentos, não uma obra capaz de justificar retrospectivamente décadas de filmes medíocres. Boa. O suficiente para me fazer assistir ao episódio seguinte, essa pequena humilhação que a televisão contemporânea sabe impor com tanta eficiência.


Criada por Brad Caleb Kane, a série acompanha os acontecimentos anteriores ao massacre do filme original e coloca Pam Voorhees, interpretada por Linda Cardellini, no centro da narrativa. Depois de perder o filho Jason, afogado no lago, Pam tenta continuar vivendo numa cidade que parece ter desenvolvido um interesse inconveniente por sua tragédia. A chegada de dois desconhecidos ameaça revelar segredos de seu passado, porque aparentemente nem a dor pode permanecer privada quando há pessoas entediadas à procura de alguma coisa para comentar.


Sempre me incomodou a maneira como o sofrimento alheio se transforma em entretenimento social. As pessoas perguntam se você está bem com uma expressão que sugere esperança de que a resposta seja negativa. Querem detalhes, antecedentes, circunstâncias. A tragédia precisa ser narrada, organizada e oferecida aos curiosos, de preferência com informações suficientes para que possam formar uma opinião moral sem precisar se comprometer com absolutamente nada. Pam vive cercada por esse tipo de gente, e a série entende que uma comunidade aparentemente pacata pode ser um lugar bastante hostil para quem não consegue desempenhar o papel esperado.


O que me interessou em Crystal Lake foi a decisão de olhar para Pam antes de olhar para o monstro. O terror costuma gostar de criaturas que dispensam explicações. Um sujeito com uma máscara e uma faca resolve o problema narrativo de maneira bastante econômica. Pessoas dão mais trabalho. Têm justificativas, contradições, hábitos deploráveis e uma capacidade quase ilimitada de fazer coisas terríveis acreditando que estão agindo corretamente. O monstro pelo menos não precisa comparecer a um almoço de família e explicar por que está de mau humor.


Linda Cardellini é extraordinária. Não uso a palavra com frequência porque ela costuma aparecer em críticas escritas por pessoas que confundem entusiasmo com vocabulário, mas aqui a atriz realmente merece. Sua Pam não anuncia a própria deterioração psicológica. Não precisa chorar em todas as cenas, arregalar os olhos para a câmera ou oferecer ao espectador uma cartilha ilustrada de sofrimento. Cardellini trabalha com pequenas alterações de expressão, pausas desconfortáveis e uma normalidade que vai se tornando difícil de suportar.


Há momentos em que Pam parece apenas uma mulher exausta, obrigada a continuar funcionando porque o mundo não costuma conceder licença remunerada para o desespero. Em outros, alguma coisa em seu comportamento produz um desconforto que não conseguimos localizar imediatamente. A atriz mantém a personagem nessa zona instável sem recorrer à caricatura. É possível sentir pena de Pam, desconfiar dela e rir de alguma coisa que faz, para depois se arrepender do riso. Gosto de personagens que provocam esse tipo de embaraço. A simpatia automática é uma exigência bastante infantil para a ficção.


Também tenho pouca confiança em personagens excessivamente agradáveis. Gente que sabe sempre o que dizer, que oferece ajuda antes de ser solicitada e que parece emocionalmente organizada o tempo inteiro me deixa desconfiado. Na vida real, a polidez pode ser apenas polidez, naturalmente, mas também pode funcionar como uma forma de administração da própria imagem. É possível passar anos parecendo uma pessoa decente sem jamais precisar descobrir o que faria diante de uma situação verdadeiramente intolerável. A normalidade recebe elogios demais para uma coisa tão pouco testada.


Pam não é simpática no sentido convencional, e a série acerta ao não tentar torná-la adorável para facilitar nossa relação com ela. A maternidade costuma receber um tratamento sentimental que me parece quase ofensivo. Como se dar à luz conferisse à mulher uma espécie de imunidade moral, uma autorização permanente para sofrer e, em nome desse sofrimento, ser poupada de perguntas inconvenientes. Mães também são possessivas, egoístas, cruéis e capazes de confundir o amor com o direito de decidir a vida de outra pessoa. O vínculo materno não elimina as partes desagradáveis de ninguém. Em alguns casos, oferece a elas um esconderijo particularmente eficiente.


Jason também recebe um tratamento mais cuidadoso do que aquele reservado ao assassino mascarado nos filmes. Sua presença na franquia foi consolidada pela brutalidade, pela resistência física e pela eficiência quase industrial com que elimina jovens. A série tenta investigar o ambiente emocional que antecede essa imagem, sem precisar convertê-lo numa criança adorável injustiçada pelo mundo. Ainda bem. A ficção já tem problemas suficientes com a mania de explicar comportamentos monstruosos como se a explicação fosse uma espécie de absolvição.


O vínculo entre Pam e Jason interessa justamente porque o amor que os une não aparece como um sentimento limpo, seguro e edificante. Pam precisa do filho, mas essa necessidade interfere na maneira como o enxerga. Há uma diferença entre amar uma pessoa e amar aquilo que ela representa para nós. 


O acerto está em deslocar parte do interesse do assassino para as pessoas que o cercam. Antes de qualquer faca, existe uma comunidade que prefere certas versões dos acontecimentos a outras. Existem ressentimentos antigos, omissões convenientes e indivíduos que sabem mais do que admitem. A violência não aparece num espaço vazio. Ela se desenvolve num ambiente em que as pessoas têm motivos para esconder o que sabem, preservar reputações e evitar conversas capazes de alterar a maneira como são vistas.


O horror doméstico sempre me pareceu mais convincente do que o sobrenatural, talvez porque eu nunca tenha precisado conhecer um fantasma para encontrar alguém incapaz de respeitar limites. O fantasma tem a vantagem de não telefonar no domingo, não exigir uma explicação para sua ausência e não insistir que você está exagerando quando pede para ficar sozinho. Pessoas, por outro lado, podem transformar a intimidade numa forma de invasão e depois chamar isso de preocupação. O vocabulário afetivo oferece excelentes esconderijos para comportamentos bastante desagradáveis.


Isso não significa que Crystal Lake tenha abandonado o sangue, o espetáculo ou a vulgaridade que sustentam a franquia. Seria curioso acompanhar uma série de Sexta-Feira 13 em que todos resolvessem seus problemas conversando, embora provavelmente fosse uma produção curta. Há mortes brutais, sustos e momentos de humor que funcionam porque a série não demonstra vergonha de sua própria natureza. Ela sabe que o grotesco pode ser divertido sem precisar reivindicar uma importância cultural a cada cinco minutos.


Crystal Lake

O gore tem uma função muito simples: produzir repulsa, choque e, em certas circunstâncias, prazer. Não há necessidade de fingir que o espectador está participando de uma experiência moralmente elevada quando assiste a uma pessoa fictícia sendo despedaçada. O absurdo também diverte. A distância entre a violência na tela e a segurança do sofá permite uma espécie de curiosidade que provavelmente seria menos confortável se alguém precisasse lavar o chão depois. O entretenimento depende, entre outras coisas, de podermos desligar a televisão antes que a realidade peça nossa participação.


Algumas subtramas se prolongam sem acrescentar muito à história. Certos personagens entram em cena com a sensação de que alguém precisava justificar a duração de oito episódios. Não desenvolvem relações particularmente interessantes, não alteram nossa compreensão dos protagonistas e, em algumas passagens, parecem existir apenas para adiar o próximo acontecimento relevante.


Quando Pam e Jason deixam de ocupar o centro da narrativa, o interesse oscila. Não tenho objeção à existência de personagens secundários, nem acredito que uma série deva manter seus protagonistas permanentemente diante da câmera. O problema é a diferença entre ampliar um universo e preencher espaço. Uma história pode desacelerar para aprofundar um personagem, mas precisa oferecer alguma coisa em troca da espera. A lentidão, sozinha, não é uma virtude. Também não é defeito por definição. É apenas uma escolha cujo resultado precisa justificar o tempo que exige.


Em alguns trechos, Crystal Lake parece confundir mistério com adiamento. Informações são retidas, conversas se arrastam e determinadas situações permanecem suspensas até que a narrativa decida avançar. A tensão funciona quando sentimos que alguma coisa está se acumulando. Funciona menos quando começamos a perceber o esforço para impedir que a história chegue a um ponto que já deveria ter alcançado. Não preciso de acontecimentos a cada minuto, mas gostaria que os minutos parados tivessem algum motivo para existir.


Esses problemas não destroem a série porque ela recupera o interesse sempre que retorna aos conflitos mais íntimos. 


Com oito episódios, a primeira temporada encontra um resultado satisfatório entre a expansão da mitologia e a tentativa de contar uma história própria. As referências aos filmes originais estão presentes, mas não exigem que o espectador trate cada detalhe como uma revelação sagrada. Isso me agrada. Nunca entendi a necessidade de transformar o consumo de uma franquia numa prova de fidelidade. Gosto de uma obra quando ela funciona, não porque assinei um contrato imaginário com todas as produções que vieram antes.


Brad Caleb Kane já demonstrou interesse em continuar explorando esse universo. Eu preferiria que não houvesse uma segunda temporada. Não porque considere impossível produzir novos episódios interessantes, mas porque a possibilidade de continuar não constitui, por si só, um argumento. A indústria audiovisual parece ter dificuldade para aceitar que uma história possa chegar a um ponto satisfatório e permanecer ali. Um sucesso precisa gerar outro produto, um personagem precisa ganhar mais tempo de tela, uma boa ideia precisa ser prolongada até que o público comece a sentir saudade da época em que ela ainda era boa.


A primeira temporada de Crystal Lake chega a um encerramento que considero suficiente. Não resolve cada aspecto do universo apresentado, nem precisa fazê-lo. Deixa espaço para a imaginação sem transformar essa abertura numa cobrança. Sempre haverá outro segredo, outra morte, outra história que alguém poderá contar para justificar a permanência no lago. O fato de haver material disponível não significa que exista uma boa razão para usá-lo.


Minha opinião sobre Sexta-Feira 13 continua praticamente intacta. Não fui tomada por uma vontade repentina de rever todos os filmes, tampouco passei a considerar indispensável uma franquia que nunca me interessou tanto. Descobrir uma boa série dentro de um universo que considero irregular não exige uma conversão completa. Posso gostar de uma coisa sem precisar defender todas as outras que compartilham seu sobrenome. É uma liberdade simples, embora pareça cada vez mais difícil de exercer numa cultura que transforma preferências em identidades e identidades em obrigações.


Crystal Lake não redime a franquia. Não acho que precise. Redenção seria uma palavra desproporcional para uma série construída sobre décadas de mortes ficcionais e repetições narrativas. O que ela consegue fazer é encontrar uma perspectiva mais interessante, apoiada numa protagonista complexa, numa atuação excelente de Linda Cardellini e numa mistura de suspense, humor e violência que, apesar dos tropeços, funciona.


O lago deixa de ser apenas o endereço de um assassino e passa a concentrar os conflitos de pessoas incapazes de lidar com o que aconteceu. O cenário continua sombrio, os cadáveres continuam aparecendo e a comunidade continua fazendo aquilo que comunidades fazem tão bem: preservar aparências enquanto alguma coisa apodrece por baixo delas. A diferença é que agora temos motivos para prestar atenção antes de alguém começar a morrer.


Gosto de Crystal Lake porque ela me ofereceu algo que eu não esperava encontrar. Isso basta. Não preciso reverenciar o passado da franquia, defender uma continuação ou descobrir uma lição edificante em cada personagem perturbado. A série funciona melhor quando deixa as pessoas serem desagradáveis, contraditórias e responsáveis pelo que fazem, sem oferecer absolvição automática a quem sofre mais.


O lago pode continuar existindo sem que eu precise voltar a ele. Há histórias que merecem ser contadas, outras que merecem terminar e algumas que deveriam ter sido abandonadas antes de chegar à terceira continuação. A televisão ainda parece acreditar que parar é uma espécie de derrota comercial. Eu vejo como uma demonstração de bom senso.


E, sinceramente, já tenho de conviver com gente demais que insiste em permanecer quando a conversa acabou.



Crystal Lake: Gostei da Série. Não Preciso Adotar a Franquia Inteira

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