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Hamlet 16x8: O teatro como vírus contra a amnésia coletiva

Tem espetáculo que parece missa de sétimo dia de gente importante. Todo mundo entra na ponta do pé, diminui o volume da própria voz, acende uma velinha simbólica e sai convencido de que prestou um grande serviço à cultura. Uma espécie de reverência automática, dessas que confundem respeito com imobilidade. Que preguiça.


Hamlet 16x8 caminha na direção contrária dessa solenidade engessada. Em vez de colocar Augusto Boal dentro de uma moldura dourada, devolve o artista ao lugar mais perigoso onde uma pessoa criadora pode permanecer: o de alguém que continua alterando a cabeça dos outros.


Boal não aparece como santo de altar cultural. Aparece como presença incômoda, como pensamento em circulação, como uma ideia que se recusa a ficar parada. Não vira monumento. Vira contágio. E talvez seja justamente por isso que continua vivo. Monumentos são admirados à distância. Vírus atravessam corpos.


Marco Antonio Rodrigues conduz a montagem com uma desconfiança evidente diante das biografias excessivamente organizadas, aquelas narrativas que limpam as contradições, alinham os acontecimentos e transformam uma vida inteira em linha reta. Ele parece entender que ninguém existe em capítulos numerados, muito menos dentro da cronologia impecável dos museus.


A memória entra em cena como realmente funciona: aos tropeços. Mistura datas, afetos, fantasmas, Shakespeare, prisão, infância, gargalhadas, exílio e silêncio. As lembranças não aparecem como arquivos perfeitamente catalogados, mas como objetos encontrados dentro de uma gaveta aberta às pressas. Tudo se mistura porque é assim que a cabeça humana trabalha quando uma recordação decide voltar sem pedir autorização.


Rogério Bandeira compreende isso desde o primeiro instante. Ele não tenta vestir Augusto Boal como quem reproduz uma fotografia antiga. Não existe aquela obsessão por imitar voz, trejeito ou movimento para convencer a plateia de que está diante de uma cópia fiel.


Hamlet 16x8

O que surge no palco é outra coisa: uma conversa entre corpos e tempos diferentes. Em alguns momentos, parece que Boal sopra alguma coisa no ouvido do ator. Em outros, parece que Bandeira responde. Há momentos em que os dois parecem discordar. E essa discordância talvez seja uma das partes mais interessantes da montagem.


Porque uma pessoa realmente viva nunca coincide completamente consigo mesma. Toda existência guarda pequenas disputas internas, contradições que permanecem respirando.


A encenação aposta em um despojamento quase insolente. Não há um cenário tentando gritar sua própria importância, como se o excesso de recursos pudesse compensar a ausência de pensamento. Também não existem dispositivos tecnológicos usados como distração sofisticada.


Quando os elementos desaparecem, restam o corpo, a palavra e o silêncio. O silêncio, aliás, recebe um tratamento raro. Em vez de funcionar como ausência, torna-se presença. Bem colocado, consegue produzir mais impacto do que muitos efeitos especiais construídos para arrancar uma reação imediata.


O pai morto de Hamlet encontra os desaparecidos políticos brasileiros. A dúvida existencial encontra censura, tortura, exílio e uma memória coletiva marcada por cortes profundos. De repente, Elsinore deixa de parecer um castelo distante e passa a fazer fronteira com qualquer esquina brasileira onde a História tentou esconder cadáveres sob camadas de silêncio.


A montagem entende isso sem precisar transformar o palco em tribunal ou palanque. Não distribui respostas prontas, não sobe em um caixote para entregar palavras de ordem a uma plateia transformada em audiência obediente. Confia em algo cada vez mais raro: a inteligência de quem assiste.


Hamlet 16x8 coloca perguntas em circulação e deixa que elas continuem trabalhando depois do fim da sessão. Quem procura respostas precisa construir as próprias.


Hamlet 16x8: O teatro como vírus contra a amnésia coletiva


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