MGK “Lost Americana”: É profundo ou só bem produzido?
- circuitogeral

- há 1 dia
- 2 min de leitura
Falta apenas pedir um Pix solidário ao fim de cada faixa
MGK “Lost Americana”: É profundo ou só bem produzido?
Lost Americana é o álbum em que MGK tenta se apresentar como um sobrevivente do sonho americano enquanto observa o próprio reflexo do conforto. Ele olha para os Estados Unidos e declara: “Isso aqui não é o sonho americano, é o meu pesadelo americano”, sentado numa mansão, com uma Fender cara no colo e um contrato multimilionário bem guardado na gaveta. É quase comovente. Quase. Falta apenas pedir um Pix solidário ao fim de cada faixa.
A proposta, em tese, é profunda: escavar o sonho americano até revelar suas fraturas. Na prática, a escavação é feita com colher de sobremesa emocional. MGK cava com insistência e encontra sempre o mesmo objeto de estudo: ele próprio. Trauma, fama, identidade fragmentada, rebeldia cuidadosamente autorizada pela gravadora. O álbum se comporta como uma longa sessão de terapia em que o terapeuta pergunta “e como você se sente em relação a isso?” e o paciente responde, invariavelmente, com um refrão.
Musicalmente, o disco se ancora na fórmula segura do “rock alternativo cinematográfico”. Há guitarras que choram, baterias que soam heróicas e uma atmosfera de trailer de filme que jamais ganhou um Oscar. Tudo é intenso, tudo é sério, tudo pede para ser levado a sério. E é justamente aí que mora o problema. Quando o artista se leva demais a sério, a arte começa a implorar por algum senso de autocrítica.
A proclamada ode aos outsiders merece atenção especial. MGK, artista multiplatinado, presença constante em capas de revista e rodeado de colaboradores renomados, se coloca como porta-voz dos deslocados. O efeito é semelhante ao de um CEO afirmando que também odeia segunda-feira. A identificação até acontece, mas dura pouco. Ela se desfaz no instante em que a realidade lembra que seu cartão foi recusado no mercado ontem.
O álbum fala de reinvenção, mas de uma reinvenção superficial, quase cosmética. Muda-se o figurino, mantém-se o drama. O personagem é o mesmo, apenas com outra jaqueta, repetindo as mesmas queixas e adotando a pose de quem acabou de descobrir que o mundo é cruel. Trata-se de uma revelação que chega com cerca de trezentos anos de atraso.
No fim, Lost Americana se revela um disco que almeja ser um grito existencial, mas se contenta em ser um desabafo bem produzido. Não é ruim. Tampouco é revelador. É apenas correto demais para ser perigoso e barulhento demais para ser profundo.
Um álbum que afirma estar perdido, mas faz questão de deixar claro que se perdeu em um bairro nobre, com Wi-Fi excelente e assessoria de imprensa sempre à disposição.






Comentários