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Roberta Sá: “Tudo Que Cantei Sou”, elegância, ironia e delicadeza que acerta em cheio

Bandolim, violão e voz bastam

Roberta Sá

Roberta Sá: “Tudo Que Cantei Sou”, elegância, ironia e delicadeza que acerta em cheio


Se você acha que já ouviu discos “intimistas” que soam como chá de camomila para acalmar a alma, é melhor esquecer. “Tudo Que Cantei Sou” chega com a precisão de uma apresentação de ginástica artística: nada sobra, nada falta, e cada movimento é executado com segurança desconcertante. Roberta Sá não busca aplausos fáceis nem posa como diva de reality show. O que ela propõe é outra coisa: lembrar que a música não é sobre volume ou exibicionismo, mas sobre a coragem de existir plenamente dentro das notas.


O título do projeto não é mero ornamento. Cada faixa funciona como uma afirmação clara de identidade, quase um recado direto ao ouvinte: “isso também sou eu”. Enquanto muitos artistas se apoiam em efeitos, excessos e performances infladas, Roberta escolhe o caminho oposto. Bandolim, violão e voz bastam. A economia de recursos não empobrece o resultado; ao contrário, evidencia uma sofisticação que dispensa alarde e ainda provoca aquela inveja silenciosa que só o domínio verdadeiro desperta.


A maturidade artística que ela demonstra aqui impressiona justamente por não precisar se provar. Não há piruetas vocais nem demonstrações de força gratuita. Cada silêncio, cada respiração e cada pausa têm peso dramático. A emoção não se impõe aos gritos: ela se infiltra, sutil, e atinge com a precisão de quem sabe que menos, quando bem usado, pode ser devastador.


Um dos pontos altos do projeto é o bloco feminino. Teresa Cristina, Dora Morelenbaum, Rosa Passos. A reunião dessas vozes não soa como estratégia, mas como declaração estética e política. São mulheres que carregam história, repertório e personalidade, formando um conjunto que desmonta egos inflados sem precisar levantar a voz. Enquanto o mercado insiste em confundir visibilidade com relevância, Roberta e suas parceiras seguem desfilando pela avenida da autenticidade, com classe e senso de humor.


O registro audiovisual gravado na Casa de Francisca reforça essa escolha. Sem plateia, sem aplausos ensaiados, o foco recai inteiramente sobre a música e a interpretação. Roberta canta olhando direto para a câmera, como quem convida o espectador a estar presente de verdade. Não há pedido de validação. Há apenas a certeza tranquila de quem sabe exatamente o que está fazendo. Cada canção carrega uma ironia delicada, e cada acorde parece rir da ideia de que genialidade precisa ser ostentada.

No fim das contas, “Tudo Que Cantei Sou” vai além de um álbum ou de um balanço de 20 anos de carreira. É um exercício de inteligência musical, sarcasmo elegante e ousadia sem rótulos. Roberta Sá canta sua própria trajetória sem peso ou grandiloquência, jogando purpurina no senso comum e lembrando, com leveza, que a sofisticação verdadeira raramente faz barulho.


Se a música fosse um bloco de carnaval, Roberta Sá seria o trio elétrico que ninguém ousa ultrapassar. Não pelo volume, mas pela autoridade. Ela mistura riso, ironia, talento e classe em uma batida que faz o ouvinte bater palmas, sorrir e reconhecer, quase sem perceber, que está diante de alguém que manda na avenida e também na própria escuta.


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