Dora Morelenbaum “Pique” A arte de não tropeçar
- circuitogeral

- há 4 dias
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Um álbum profundamente comprometido em parecer casual

Dora Morelenbaum “Pique” - A arte de não tropeçar
Pique. Um título curto, quase um aquecimento antes do jogo, para um álbum profundamente comprometido em parecer casual. A palavra promete impulso, faísca, talvez até suor. O que entrega, na maior parte do tempo, é uma languidez muito bem ensaiada, como quem acorda linda sem bagunçar o cabelo. Dora Morelenbaum, nascida já sob o lustro da legitimidade musical, apresenta aquilo que muitos insistem em chamar de “estreia solo”, como se décadas de pedigree fossem apenas um detalhe biográfico irrelevante, tipo signo.
O discurso em torno do álbum é impecável e perfeitamente sincronizado com o espírito do tempo. Fala-se em “escuta”, “presença”, “respiração”, “vulnerabilidade”. Falta apenas alguém dizer “processo” e servir um café coado na hora. Tudo é bonito, correto e perigosamente próximo de um manual contemporâneo de sofisticação emocional para pessoas que já leram Winnicott, mas não pretendem se desorganizar por causa disso. Dora canta baixo, canta suave, canta como quem pede licença até para sentir. E essa virou, convenhamos, a maneira mais confortável de parecer profunda sem correr o risco de exagerar, desafinar ou passar vergonha. A contenção aqui não é virtude. É método.
Musicalmente, Pique é irretocável. MPB, jazz, soul, R&B, Gil, Sly, quarteto de jazz, loops orgânicos, arranjos de cordas paternos. Tudo no lugar certo, como uma estante organizada por cores. É um álbum que nunca erra o tom porque nunca se permite errar emocionalmente. O resultado é elegante, sem dúvida, mas também asséptico. Parece aquele apartamento lindo de revista onde ninguém nunca chorou no banheiro, brigou na sala ou teve uma ideia realmente ruim às três da manhã. Falta bagunça. Falta risco. Falta vida fora do enquadramento.
A chamada “herança sem peso” talvez seja o ponto mais revelador do projeto. Dora não enfrenta a tradição; ela passeia por ela como quem já recebeu o mapa na entrada. Isso garante uma segurança técnica admirável, mas cobra um preço alto: a ausência quase total de urgência.
Nada aqui soa necessário. Tudo soa possível, bem-feito e educado. Até o amor, esse assunto historicamente associado a decisões ruins e noites péssimas, aparece mais como conceito estético do que como experiência devastadora. Fala-se de amor, mas raramente alguém sangra, sua ou perde a dignidade por ele.
As parcerias funcionam como um selo automático de qualidade. Tom Veloso, Ana Frango Elétrico, Zé Ibarra, Josyara, Negro Léo. Um elenco tão afinado que quase dispensa o disco. Cada faixa confirma que Dora está com as pessoas certas, nos selos certos, frequentando os lugares certos. E esse é justamente o problema. Pique não tropeça, não arrisca, não falha e, por isso mesmo, não exige nada de quem escuta. A música passa como um olhar bonito no metrô que você até nota, mas esquece antes da próxima estação.
Há momentos, poucos e preciosos, em que a redoma quase trinca. “Petricor”, por exemplo, flerta com o transe, com a repetição obsessiva, com a possibilidade real de algo sair do controle. Mas não sai. Tudo se recompõe rapidamente, como convém a alguém que sabe exatamente onde está pisando e não pretende sujar o sapato. Até o humor e a ironia de “Caco” parecem cuidadosamente calibrados para não bagunçar demais a persona sensível, madura e plenamente consciente de si, talvez consciente até demais.
No fim, Pique é um álbum que pede atenção e a recebe. Mas também é um disco excessivamente protegido da indelicadeza do mundo, do erro verdadeiro, da feiura que transforma. Dora Morelenbaum demonstra talento, inteligência musical e um gosto impecável. O que ainda não demonstra, e isso é grave para quem aspira à grandeza, é a coragem de ser inconveniente, excessiva ou indomável.
É um trabalho bonito. Funciona. Impressiona.
Mas, para alguém que claramente pode mais, isso é pouco.







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