O dia em que vão embora – Entre os confetes do que já foi
- circuitogeral
- há 8 horas
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Uma festa que já durou demais

O dia em que vão embora – Entre os confetes do que já foi
É na ressaca do palco que o espetáculo “O dia em que vão embora” com texto de Lara Bereta e direção de João Gofman mostra sua força. Encerrada em si como uma festa que já durou demais, mas ainda pulsa sob as luzes coloridas que insistem em não se apagar, a nova montagem da companhia Atores do Fim não nos convida exatamente a celebrar. Ela nos deixa trancados dentro do salão, quando todos já deveriam ter ido embora.
A narrativa se move aos tropeços, não por falha, mas por escolha estética. Há uma cativante intransitabilidade no modo como a história se recusa a seguir uma linha reta. Fragmentada, feita de pedaços de frases, memórias mal costuradas e silêncios que ecoam mais do que os aplausos, a peça mergulha na mente de uma autora em crise criativa. E não busca saída.
A autora, interpretada com fúria contida por Lara Bereta, é menos uma personagem e mais um estado de espírito. Cercada por suas criações, personagens que ganharam carne, voz e urgência, ela é confrontada por tudo aquilo que tentou apagar: textos abandonados, palavras que não encontraram destino, afetos deixados em rascunho. A metalinguagem aqui não é ornamento. É um campo de batalha.
João Gofman dirige com a precisão de quem entende o valor do ruído. Os personagens não obedecem a regras dramáticas tradicionais. São intrometidos, desiguais, por vezes até irritantes, como toda boa criação que se recusa a ser esquecida. Em vez de costurar as cenas, a direção parece rasgar ainda mais os tecidos narrativos, expondo as emendas, os buracos, as dobras. Tudo o que é falho se torna fundamental. E tudo o que poderia ser resposta se desfaz em pergunta.
O texto de Bereta vibra nas entrelinhas. Não há grandes revelações, nem catarse. Há, sim, um esgotamento cuidadosamente construído, onde cada frase parece o último gole de uma taça já virada muitas vezes. O humor surge, por vezes, como quem entra por engano e permanece desconfortável, fazendo-nos rir por não sabermos mais o que sentir.
“O dia em que vão embora” não termina. Desliga. Como uma playlist esquecida, tocando baixinho quando o último convidado já saiu, a peça permanece depois da saída do público, dentro de quem se deixou afetar. É um espetáculo para quem aceita se perder nos becos do próprio processo criativo. Uma peça para quem já esteve (ou ainda está) preso em sua própria festa.
Espetáculo: “O dia em que vão embora”
Local: Sede da Cia. dos Atores
(Rua Manuel Carneiro, 12 – Escadaria Selarón, Lapa)
Temporada: até 31 de agosto de 2025
Dias e horários: Sextas e sábados, às 20h. Domingos, às 19h.
Classificação indicativa: 14 anos
Duração: 70 min.
Ingressos: R$ 25 (meia-entrada) e R$ 50 (inteira)
Vendas: 1 hora antes da sessão na bilheteria da casa.
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