Os Homens Querem Casar e as Mulheres Querem Sexo 2 - contraposto ao binômio amor-tesão

Atualizado: 26 de mai.

Os questionamentos que envolvem amor romântico, sexualidade e casamento


Resenha: Paulo Sales e Mauro Senna


Como sempre ocorreu, neste momento de retomada das atividades teatrais, seja como simples forma de lazer ou também como um dos modos de saciar a fome pela arte, são lançados espetáculos cuja meta não se limita à captação de público, mas buscar agregar qualidade em cenografia, desenho de luz e som, figurino e visagismo, o público alvo que se faz presente de forma diversa. Não obstante mas imperativo, os espectadores são merecedores de todo respeito seja quanto à sua demanda por momentos de prazer saciados pela arte atenta aos protocolos ortodoxos da produção dos espetáculos teatrais ou à sua busca por algo que simplesmente faça o tempo passar e lhe provocar risos, independentemente do que os elementos do teatro possam estimular o seu nível de exigência.


Tais princípios, que muito provavelmente impulsionaram a produção de “Os Homens Querem Casar e as Mulheres Querem Sexo” em 2017, foram resgatados para alavancar a produção de uma sequência, tão certo quanto o hábito de se comer rabanadas no Natal. E por falar em rabanadas, a iguaria sazonal, naquela mesma ocasião, assume perenidade graças à ousada criação da Casa da Rabanada Gourmet por Carlo Simões e Isabelle Graniso – o primeiro, ator, autor e diretor e, a segunda, produtora de “Os Homens Querem Casar e as Mulheres Querem Sexo 2” – presente no rol de apoiadores do espetáculo sem qualquer patrocínio público ou privado.


Assumindo a cara de pau com que se propõe a se apresentar no palco, encantada pelo carisma cativante que o torna o camarada de cada um dos espectadores, Simões assume uma narrativa que passa ao largo da heteronormativa sexista ao longo da qual confere aos homens um estado de preparo permanente para praticarem sexo e, às mulheres, a capacidade de simular um estado, tão permanente quanto conveniente, de mal estar acompanhado por dores de cabeça, como subterfúgio para evitar o sexo, tornando os momentos de busca de prazer cada vez menos frequentes.


Mesmo em meio às gargalhadas genuínas ecoadas na plateia e da não muito rara identificação do espectador com o personagem Jonas, vivido sem qualquer esforço aparente por Simões, o texto de sua autoria abre espaço para a reflexão sobre o sexo como fator não fundamental para a garantia de sucesso no casamento. Tudo isso recheado com piadas contemplando termos, gestuais e adereços provincianos que contam com imediata adesão de espectadores que respondem pronta e colaborativamente ao aliciamento de Simões, que atinge a plateia com a mesma efetividade de uma programação neuro linguística positiva.


Contrapondo em off à oratória de Simões, eis que surge uma feminina voz divina, emprestada por Camila Santanioni, sugerindo uma leitura do casamento como instituição impregnada de heranças heteropatriarcais resistentes até os tempos atuais, ilustrada por tradições, dentre as quais a figura paterna se imbui do poder de ceder a mão da filha a um pretendente, a esposa tomando para si o sobrenome do marido involuntariamente e o casamento sendo tratado como um indicador de sucesso.


O encontro dessas duas vertentes define, humoristicamente, as dimensões físicas, psicológicas e interpessoais do desejo sexual e do matrimônio, durante o qual a eventual privação do sexo tem peso menor do que a ausência do amor.


Ao contrário de “Os Homens Querem Casar e as Mulheres Querem Sexo” – que discorre sobre a crise de Jonas após ser abandonado no altar pela terceira vez e sobre fato do protagonista chegar à conclusão ser ele apenas um objeto sexual nas mãos das mulheres com as quais se envolvia – a sequência lança no ar um entendimento sobre o fato de as pessoas fazerem sexo por motivos diversos e não simplesmente por mera atração sexual. O abismo entre desejo sexual e atração sexual é contraposto ao binômio amor-tesão, resultando na compreensão do desejo como o estado de bem querer e a atração, sempre direcionada a um alvo externo da relação.


Isso posto, um chamado para os que se dignam lançar um olhar preguiçoso e simplificado sobre a tipologia do espetáculo - há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia. Desnecessário se faz qualquer comentário sobre os recursos cênicos voluntariamente negligenciados ao mínimo indispensável, dando lugar ao fator surpresa involuntariamente intrínseco ao espetáculo. A direção de Carlo Simões monta um quebra-cabeça heterossexual impulsivo sem, com isso, necessariamente envolver as fantasias dos espectadores em uma condição padrão de sexualidade.


Contemplando um tema já tão sobrecarregado pela comicidade, a sala de teatro lotada por espectadores reagentes a cada fala do protagonista com manifestações pirotécnicas se consagra em campo de conectividade plena com os questionamentos que envolvem amor romântico, sexualidade e casamento – quem sabe, até mesmo elucidando em qual estrutura de relacionamento cada um deles se encontra.


Ficha Técnica


Direção e Texto Carlo Simões

Elenco Carlo Simões e Camila Santanioni

Direção de Produção Isabelle Graniso

Programação Visual Sandro Leal

Realização Playcine Produções

Duração: 60min

Classificação: 14 anos

Gênero: Comédia

Teatro Fashion Mall (Estrada da Gávea, 899 – São Conrado)

sábado, às 19h30.

Até 28 de maio de 2022




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