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Tom na Fazenda: a homofobia como sistema e a família como cúmplice

A violência apresentada é perturbadora, sim, mas dentro de um grau de perturbação que o espectador médio consegue metabolizar antes do vinho pós-teatro

Tom na Fazenda

Tom na Fazenda: a homofobia como sistema e a família como cúmplice


Tom na Fazenda, sob a direção de Rodrigo Portella, é aquele raro espécime do teatro brasileiro contemporâneo que conseguiu algo quase milagroso: ser premiado, financiado, citado pelo The Guardian e, ainda assim, continuar merecendo ser levado a sério. Isso não o isenta, evidentemente, de uma análise crítica sem anestesia. Sucesso não é salvo-conduto estético. É convite ao bisturi.


Portella parte de um texto que já chega musculoso, escrito por Michel Marc Bouchard, dramaturgo que claramente não acredita em vilões de novela nem em conflitos resolvidos no terceiro ato. Aqui, a homofobia não aparece como explosão ocasional de ignorância, mas como um sistema de funcionamento contínuo, operando em segundo plano. É daquelas engrenagens silenciosas que você não vê, mas que determinam todo o ritmo da máquina. O espetáculo acerta ao não tratar o embate como “cidade versus campo”.


A encenação aposta numa estética da contenção radical. Lama, água, lona rústica, corpos permanentemente à beira do tombo. É quase um Big Brother da repressão, só que sem prêmio no final. O dispositivo funciona porque não está ali para ilustrar o campo, mas para impor um regime físico de instabilidade permanente. Nada ali é confortável. Nem para os personagens, nem para os atores, nem para o espectador que entra acreditando que irá assistir apenas uma peça, mas não  sai ileso.


O problema surge quando Portella confia tanto no silêncio que, em alguns momentos, parece querer institucionalizá-lo. Há pausas em que o vazio comunica com precisão cirúrgica. Em outras, ele apenas se repete, solene, como se esperasse reconhecimento por existir. Quando o silêncio se torna um efeito facilmente identificável, perde parte de sua força e passa a funcionar como assinatura estética. Elegante, respeitável e, por isso mesmo, um pouco previsível.


O elenco sustenta a proposta com inteligência e rigor. Armando Babaioff constrói um Tom que não é mártir nem herói. É alguém tentando não morrer emocionalmente no meio de uma família que transformou a mentira em política cotidiana. Iano Salomão cria um Francis que assusta menos pela violência explícita e mais pela coerência interna, aquele tipo de personagem que, se tivesse X, seria cancelado sem jamais rever uma posição. Denise Del Vecchio entrega uma Agatha cuja negação é tão educada que se torna cruel. Ela não grita, não xinga, não agride. Apenas apaga. Camila Nhary cumpre com precisão o papel ingrato de ser peça-chave de uma farsa que todos sustentam e ninguém tem coragem de desmontar.


A comparação com o filme de Xavier Dolan é inevitável, mas Portella é inteligente o suficiente para não competir no território da estilização exuberante. Aqui não há câmera nervosa nem trilha pop existencialista. O teatro opta pela ritualização do constrangimento. Ainda assim, algumas escolhas, sobretudo na tensão entre violência e desejo, recorrem a uma iconografia contemporânea já bastante reconhecível. Não se trata exatamente de ousadia, mas de repertório bem administrado.


No plano institucional, Tom na Fazenda ocupa um lugar confortável para uma obra que fala de exclusão. Circula com fluidez, dialoga bem com um público progressista já convencido, encaixa-se com elegância no circuito dos grandes festivais e dos patrocínios culturais. Isso não é um defeito em si, mas ajuda a entender por que o espetáculo incomoda sem desorganizar demais. Ele provoca desconforto, mas não instaura crise. A violência apresentada é perturbadora, sim, mas dentro de um grau de perturbação que o espectador médio consegue metabolizar antes do vinho pós-teatro.


Ainda assim, seria injusto reduzir a peça a um produto bem-acabado. Tom na Fazenda persiste porque compreende algo essencial: a violência mais eficiente não é a que explode, mas a que se administra com método, afeto condicionado e silêncio compartilhado. Seus limites vêm do excesso de controle. Seus méritos, da recusa em subestimar quem assiste.


Ao final, não há catarse, redenção nem lição de moral sublinhada em neon. O que permanece é um desconforto insistente. A sensação de que o que se viu no palco não habita apenas aquela fazenda fictícia, mas circula com naturalidade por almoços de família, assembleias de condomínio, em reality shows e discursos educados, perfeitamente civilizados.


É um teatro que entende que cultura é linguagem, memória e indústria. E que, quando decide ser sério, não precisa ser sisudo. Basta ser preciso. E suficientemente cruel para não fingir inocência.


Teatro Municipal Carlos Gomes - Pça Tiradentes, s/nº, Centro / RJ

HORÁRIOS: 5ª e 6ª às 19h; sab e dom às 17h 

INGRESSOS: R$140 e R$70 (meia); popular R$50 e R$25

ACESSIBILIDADE: sim 

CAPACIDADE: 561 lugares 

DURAÇÃO: 120 min 

GÊNERO: drama 

CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA: 18 anos 

TEMPORADA: até 1º de fevereiro 


Tom

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