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Nas Selvas do Brazyl, ou “Roosevelt e Rondon entram numa floresta…”

O palco vira um tribunal do tempo, onde os dois ajustam contas enquanto a floresta, que é a verdadeira protagonista, observa como aquela tia que sabe todos os podres da família.

Nas Selvas do Brazyl

Nas Selvas do Brazyl, ou “Roosevelt e Rondon entram numa floresta…”


Imagina assim: você pega Theodore Roosevelt, ex-presidente dos Estados Unidos, especialista em posar para foto com arma na mão, e bota ele para atravessar a Amazônia com o Marechal Rondon, que é praticamente o Wi-Fi humano que ligou o Brasil inteiro a fio e poste. Agora junta esses dois e fala: “Vai lá, faz uma peça de teatro sobre isso”. Pronto, nasceu Nas Selvas do Brazyl e nasceu com aquela cara de “isso aqui vai dar ruim”, mas no melhor sentido teatral possível.


Porque a visão do Daniel Herz, né… O homem olha para a floresta e vê um organismo vivo, respirante, pulsante… Eu olho para a floresta e vejo pernilongo, mas está tudo bem, cada um com seu talento. Só que o mais impressionante é que ele transforma essa mata numa espécie de terapeuta coletiva: tudo ali respira, range, escurece, abre clareira… E, se você piscar, ela devolve seus próprios demônios em 4K.


E Herz faz isso com aquela sutileza dele. Enquanto a gente entraria na Amazônia tropeçando, derrubando árvores e perguntando onde tem serviço de bordo, ele entra com poesia, fazendo parecer que a floresta está conduzindo uma respiração diafragmática com o elenco.


Mas não se engane: a selva que ele monta não é só cenário, é um estado emocional, tipo quando a internet cai e você tem que lidar com a própria existência.


A dramaturgia do Pedro Kosovski, então, é aquele presente que vem numa caixa bonita e, quando você abre, descobre que, na verdade, é uma bomba histórica: colonização, etnocentrismo, dependência geopolítica, tudo aquilo que a gente tenta fingir que não está mais aí… e surpresa! Está mais vivo que o capim do quintal da sua avó.


E aí entram Roosevelt e Rondon, dois homens que parecem ter sido escalados por um algoritmo de ironia histórica:


Um é o colonizador branco internacional, aventureiro, cheiro forte de “Manifest Destiny”.


O outro é o militar pacifista que acredita no Brasil, na ciência, nos povos indígenas e provavelmente também acreditava que Roosevelt não ia morrer no meio da selva. Quase errou.


A peça tem a ousadia de imaginar tudo o que eles não disseram. Porque, vamos combinar, dois homens desse tamanho caminhando na selva juntos certamente pensaram um monte de coisas que não saíram em nenhuma biografia. E aí o teatro se aproveita disso, e com razão. O palco vira um tribunal do tempo, onde os dois ajustam contas enquanto a floresta, que é a verdadeira protagonista, observa como aquela tia que sabe todos os podres da família.


E o melhor: os atores Gustavo Gasparani e Isio Ghelman começam interpretando Roosevelt e Rondon e, de repente, já estão perdidos, suando, filosofando, encarnando o caos climático, e a gente não sabe mais se eles fazem parte da selva ou se a selva assumiu o controle e falou: “Agora sou eu quem dirige esse troço”.


É teatralmente lindo. É historicamente perturbador. E é ambientalmente desesperador, mas daquele jeito que faz você rir nervoso, tipo quando percebe que o fogo na Amazônia não é um efeito especial.


No fim das contas, a peça parece fazer a seguinte pergunta: Que parte selvagem a gente ainda carrega? (Spoiler: muita. Inclusive aquele instinto de abrir o celular no meio da peça, mas segura, tá?)


Daniel Herz, com sua sensibilidade feroz, lembra que entrar nessa mata, teatral ou literal, é sempre um ato de coragem. Ou loucura. Mas coragem parece mais bonito na crítica, então vamos com coragem.


Por Paulo Sales


Teatro I do CCBB RJ / Centro Cultural Banco do Brasil RJ  

Rua Primeiro de Março, 66 / Centro, RJ 

HORÁRIOS: 5ª a sab às 19h e dom às 18h 

INGRESSOS: R$30 e R$15 (meia), 

HORÁRIO BILHETERIA:  de quarta a segunda, das 9h às 20h

CAPACIDADE: 159 lugares

DURAÇÃO:  70 min 

GÊNERO: drama contemporâneo

CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA: 14 anos

TEMPORADA: até 30 de novembro


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