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tanto, tudo ao mesmo tempo: Entre Gaga, Marisa Monte e Roberto Carlos, Diego Martins transforma memória em identidade

Por Paulo Sales


O projeto ao vivo chega como extensão de TANTO, seu primeiro álbum de estúdio, mas Diego Martins não parece interessado em simplesmente transportar o disco para o palco. A proposta é outra. Ele transforma a apresentação numa espécie de confessionário pop, onde vulnerabilidade, memória, performance e identidade convivem sem a obrigação, felizmente, de fazer sentido o tempo inteiro. O palco funciona menos como reprodução do álbum e mais como lugar de elaboração daquilo que o disco colocou em movimento.


A ideia de “sentir tanto, sem pausa, ao mesmo tempo” poderia facilmente desembocar naquela zona perigosa da música contemporânea em que toda emoção vem acompanhada de uma legenda explicando que é emoção. Diego escapa dessa armadilha porque tem presença suficiente para não depender da explicação. Sua força está menos em dizer ao público o que sentir do que em criar condições para que a emoção aconteça. Vulnerabilidade, quando genuína, não precisa ficar apontando para si mesma com uma placa luminosa.


Por isso, “You & I”, de Lady Gaga, interessa mais do que como simples regravação de um sucesso conhecido. A canção estabelece um acerto de contas entre o artista que um dia precisou pedir licença para existir e aquele que agora sobe ao palco com outra relação com a própria presença. Existe, nessa passagem, uma percepção tardia de que ninguém vai devolver os anos gastos tentando caber na expectativa alheia. O máximo que se pode fazer com eles é transformá-los em matéria artística.

As outras escolhas ajudam a ampliar esse retrato. “Depois”, de Marisa Monte, “Como Vai Você”, eternizada por Roberto Carlos, e o encontro entre “A História de Lily Braun” e “Mania de Você” acrescentam novas camadas ao repertório afetivo do projeto. Diego se distancia, por alguns momentos, da própria produção para entrar em contato com canções que já chegam ao palco carregadas de memória coletiva. É uma escolha arriscada. Clássico brasileiro costuma ser tratado como patrimônio nacional, e patrimônio nacional, como sabemos, não gosta muito de reforma.


Quando funciona, porém, a estratégia vai além da homenagem protocolar. Essas músicas passam a conversar com a trajetória de Diego, e o passado deixa de ser uma vitrine de referências para se tornar matéria de interpretação. Ele não parece interessado em provar que conhece essas canções. O que importa é descobrir o que elas podem dizer sobre ele agora, depois de todas as experiências que atravessaram sua formação artística.


As participações de Bea Duarte, Thales Cesar, Hypólito e Grag Queen seguem uma lógica semelhante. O espetáculo poderia facilmente transformar convidados em atrações pontuais, aquelas entradas calculadas para gerar um momento reconhecível e depois desaparecer das redes sociais. Diego escolhe outro caminho ao aproximar pessoas que parecem fazer parte de seu universo afetivo e artístico. A diferença é importante. Reunir nomes produz uma lista; reunir vínculos pode produzir uma atmosfera.


Grag Queen, sobretudo, estabelece um espelho artístico. As duas trajetórias compartilham a experiência da drag como linguagem, mas não como fantasia descartável. “Lindo Vestido” e “Sideral” ganham, nesse encontro, uma camada adicional: a percepção de que a performance pode ser simultaneamente invenção, sobrevivência e liberdade. A presença de Grag também reforça uma ideia que atravessa o projeto inteiro: a identidade de Diego não aparece como algo fixo que o espetáculo precisa apresentar ao público, mas como uma experiência em constante transformação.


tanto, tudo ao mesmo tempo

É preciso encontrar uma forma capaz de sustentar aquilo que se sente sem transformar cada momento em uma explicação sobre a própria sensibilidade. Nesse aspecto, sua experiência como ator e performer se torna fundamental. Ele sabe que cantar envolve presença, intenção e construção cênica, assim como sabe que ser drag não se resume a vestir uma persona. Existe uma consciência do palco que ajuda a manter a unidade do espetáculo mesmo quando o repertório percorre caminhos bastante diferentes.


O álbum e o espetáculo, nesse sentido, podem ser lidos como uma recusa à identidade enquanto coisa pronta. Diego se apresenta em processo. Memória, desejo, insegurança, celebração e referências afetivas aparecem lado a lado com uma vontade quase adolescente, no melhor sentido da palavra, de experimentar antes que alguém apareça para explicar o que ele deveria ser.


A contradição, entretanto, é produtiva. tanto, tudo ao mesmo tempo não pretende ser econômico. O trabalho prefere transbordar a se comportar, e essa escolha combina com a trajetória de um artista que parece mais interessado em experimentar possibilidades do que em reduzir sua personalidade a uma definição facilmente compreensível. Num momento em que tantos artistas atravessam o próprio repertório com a cautela de quem revisa um contrato, existe alguma coragem em assumir o risco do exagero.


Crescer artisticamente não significa necessariamente descobrir uma definição mais precisa de quem se é. Pode significar perceber que algumas contradições não precisam ser resolvidas. Diego pode ser cantor, ator, performer, drag queen, intérprete e autor sem transformar essas funções em etapas de uma carreira que precisa chegar a uma resposta definitiva.


O “tanto” do título carrega essa intensidade. O “tudo” amplia a possibilidade. E o “ao mesmo tempo” elimina a necessidade de organizar essas experiências em uma sequência aceitável. A provocação está justamente nessa convivência: por que uma pessoa precisaria escolher uma única versão de si para ser compreendida pelos outros?


Diego canta, atua, performa, revisita Gaga, Marisa Monte, Roberto Carlos, Rita Lee, Chico Buarque e Edu Lobo, conversa com amigos, recupera memórias difíceis e transforma tudo isso em espetáculo. É bastante coisa. Em alguns momentos, talvez até coisa demais. Mas o excesso não aparece como acidente; faz parte da linguagem que o projeto escolheu para falar sobre identidade.


tanto, tudo ao mesmo tempo: Entre Gaga, Marisa Monte e Roberto Carlos, Diego Martins transforma memória em identidade

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