Velhos Bandidos: Simpático, mas sem graça
- circuitogeral

- há 2 dias
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“Velhos Bandidos” parte de uma ideia tão batida que já deveria vir com aviso de validade vencida: reunir um grupo para um roubo. A tentativa de dar um verniz de novidade, misturando um casal de idosos com dois jovens aspirantes a alguma coisa, promete tempero diferente, como colocar pimenta gourmet em um miojo. Funciona? Até parece, mas só até a primeira garfada.
As diferenças de idade poderiam gerar um conflito rico, quase como colocar lado a lado um vinil raro e uma playlist de algoritmo: ambos tocam música, mas vivem em universos emocionais completamente distintos. Rodolfo e Marta querem recuperar o dinheiro que o banco lhes deve para embarcar em um cruzeiro, um último suspiro de prazer antes do apagar das luzes. Sid e Nancy querem subir na vida, seja em Saquarema ou em Bora Bora, trocando um sonho de Instagram por outro com filtro diferente.
O problema é que o filme parece ter medo de suas próprias ideias. Se há uma injustiça contra os idosos, ela é tão vaga quanto promessa de político em ano eleitoral. Banco malvado, sistema falido, gerente picareta? Mistério. Já os jovens entram para o crime com a profundidade psicológica de um nome estiloso, Sid e Nancy, como se a referência ao punk fosse suficiente para justificar qualquer coisa. Eles não rejeitam o sistema, querem desesperadamente fazer parte dele. São rebeldes com boleto atrasado tentando virar burgueses com financiamento aprovado.
O resultado é uma comédia que funciona como um relógio de brinquedo, que faz tic-tac apenas para parecer que está funcionando. Tudo se encaixa, mas nada pulsa. Os personagens são boas pessoas, o que no cinema costuma ser sinônimo de personagens sem dentes: mordem, mas não deixam marca. É como assistir a um assalto em que ninguém sua, ninguém hesita, ninguém realmente precisa daquilo. Um crime sem urgência é apenas um passeio mal planejado.
Sid, que começa com a promessa de ser especialista em cofres, termina como um turista perdido dentro da própria trama, precisando que os outros expliquem o que está acontecendo. Nem ele entende o filme em que está.

O filme opta por não incomodar ninguém, como um elevador com música ambiente. Está ali, preenche o silêncio, mas você esquece assim que a porta se abre. Comédia sem risco é como piada contada com medo: pode até arrancar um sorriso educado, mas nunca uma gargalhada.
Essa falta de ambição pode ser justamente o plano. Num cenário em que a comédia brasileira anda pisando em ovos, traumatizada por altos e baixos recentes, talvez a estratégia seja não ousar. Agradar todo mundo, mesmo que isso signifique não marcar ninguém, é o equivalente cinematográfico de um prato morno: não queima, não encanta, mas também não dá trabalho.
O elenco, recheado de nomes fortes, funciona como maquiagem cara em um roteiro que prefere não se olhar muito no espelho. Há talento sobrando, mas ele é usado como cortina de fumaça para esconder a ausência de conflito real. Lázaro Ramos, como o detetive Oswaldo, surge como um raro ponto de consistência, talvez porque seja um dos poucos personagens com um motivo concreto para existir.
O início sugere algo mais afiado, como uma faca recém-amolada. Mas logo a lâmina perde o fio, e o que poderia cortar vira apenas um objeto decorativo. A trama, sem desenvolvimento, se torna dispensável, como uma conversa que você já esqueceu enquanto ainda está acontecendo.
No fim, “Velhos Bandidos” é simpático. E só. Em comédia, simpatia sem humor é quase uma ofensa. É como ver um aplauso sem som: você percebe a intenção, mas não sente absolutamente nada.




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