A Hora do Boi - Confronta Homem, Animal e Emoções
- circuitogeral
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O espetáculo não quer ser “bonito”, quer ser incômodo
A Hora do Boi - Confronta Homem, Animal e Emoções
A Hora do Boi não é dessas peças que pedem licença ao espectador. Ela entra como um boi em uma loja de porcelana e não quebra tudo por acidente, mas por necessidade. O espetáculo não quer ser “bonito”, quer ser incômodo, daqueles que ficam ruminando na cabeça dias depois, como culpa mal digerida depois de um churrasco em família.
O enredo é simples apenas para quem acredita que simplicidade não sangra. Um homem. Um boi. Um matadouro. Parece pouco? Pois é justamente aí que mora a armadilha. André Paes Leme dirige como quem afia uma faca devagar: sem pressa, sem alarde, mas com plena consciência de onde vai cortar. E corta fundo. Nada de trilhos emocionais fáceis ou manipulação barata. Aqui, o sentimentalismo não entra sem crachá.
Vandré Silveira entrega uma performance que mais parece um corpo em estado de confissão forçada. Seu Francisco não fala; vaza. Ele é daqueles personagens que carregam a obediência como quem carrega um uniforme velho: apertado, sujo e impossível de tirar sem deixar marcas. A relação com o boi Chico não é metáfora fofinha de livro infantil; é um espelho cruel, daqueles que a gente evita olhar porque devolve uma imagem que não curtimos muito.
O boi, aliás, não é símbolo abstrato jogado em cena para parecer profundo. Ele é carne com prazo de validade, esperança com data marcada, como um condenado que ama seu carrasco acreditando que isso, quem sabe, possa adiar o fim. Se isso não soa familiar, talvez seja porque estamos todos ocupados demais fingindo que não somos, em alguma medida, Seu Francisco.
A encenação trata o tempo como um elástico esticado até quase arrebentar. Não há pressa porque a pressa é um luxo de quem não está no corredor da morte, humano ou animal. Cada gesto pesa. Cada silêncio ecoa. É como assistir a um relógio que não marca horas, mas decisões adiadas.
André Paes Leme parece lançar uma pergunta ao espectador: até quando dá para obedecer sem se responsabilizar? A peça não responde. Ela joga prá galera. E quem quiser uma resposta reconfortante que procure uma poltrona melhor, porque o teatro aqui não serve anestesia; serve consciência em estado bruto.
O diálogo com o imaginário popular acontece sem maquiagem folclórica. Nada de exaltar tradição como se fosse peça de museu. Aqui, a cultura é viva, contraditória, bonita e violenta ao mesmo tempo, como um boi que encanta pelo porte, mas termina pendurado por uma perna.
No fim, A Hora do Boi não pede aplauso, pede posicionamento. É teatro que não estende a mão, aponta o dedo. E faz isso com uma coragem rara, daquelas que lembram que arte não existe para agradar, mas para desestabilizar. Quem sai ileso provavelmente não entrou por inteiro.
E se alguém ainda pergunta “qual é a mensagem?”, a resposta vem seca, como golpe final: não é mensagem, é espelho. Olhe se tiver coragem.
SERVIÇO:
“A Hora do Boi”, com Vandré Silveira
Quando: até 11/02/2026 (às terças e quartas-feiras, às 19h)
Dias 10 e 11 de fevereiro de 2026.
Local: Teatro do Centro Cultural Justiça Federal (CCJF)
Endereço: Av. Rio Branco, 241 - Centro, Rio de Janeiro-RJ, CEP 20040-009
Ingressos: R$ 50,00 (inteira) / R$ 25,00 (meia-entrada)
Duração: 60 minutos
Classificação: 14 anos
Capacidade: 142 lugares




