Sozinho com Romeu e Julieta: Uma história sobre o que sobra quando o amor vira memória e o palco vira resistência
- circuitogeral

- há 1 dia
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A proposta é simples e perigosíssima: um ator, um clássico e um espaço abandonado
Sozinho com Romeu e Julieta: Uma história sobre o que sobra quando o amor vira memória e o palco vira resistência
Sozinho com Romeu e Julieta, da Trupe Ave Lola, é aquele tipo de espetáculo que não pede desculpas por existir. Ele encara o público de frente, com a sobrancelha arqueada, como quem avisa logo na entrada: se você veio procurar romance açucarado, talvez seja melhor rever o ingresso.
Dirigida por Ana Rosa Genari Tezza e protagonizada por Evandro Santiago, a montagem chega ao Rio depois de atravessar o país. Estreou em uma comunidade ribeirinha da Amazônia, passou por temporadas em Curitiba e São Paulo e agora desembarca em Copacabana. Shakespeare, ao que tudo indica, perdeu o passaporte aristocrático e resolveu circular fora do eixo da reverência.
Aqui, Romeu e Julieta não vivem um amor impossível. Eles vivem encalhados dentro da cabeça de um ator. O teatro está fechado por razões políticas, porque quase nunca é por acaso, e o que sobra é um homem sozinho entre bonecos, figurinos e restos de cena. Um náufrago cultural tentando improvisar uma jangada com o que sobrou do último espetáculo. Difícil pensar em imagem mais adequada para o teatro brasileiro contemporâneo.
A proposta é simples e perigosíssima: um ator, um clássico e um espaço abandonado. Um deslize transforma tudo em palestra. Um excesso vira delírio. A direção escolhe, conscientemente, o caminho mais arriscado. O jogo. Aqui, Shakespeare não é tratado como relíquia. Não há busto empoeirado nem culto solene ao texto. O autor surge como matéria viva, maleável, um boneco desmontável que aceita ser manipulado, rasgado e remontado sem escândalo.
Evandro Santiago sustenta o espetáculo como quem segura um espelho quebrado. Cada fragmento reflete algo diferente: Romeu, Julieta, o ator, o cidadão e, sobretudo, alguém que insiste em permanecer. Ele não interpreta personagens. Ele é atravessado por eles. Como quem tenta superar um grande amor, mas ainda tropeça nele toda vez que resolve abrir um armário antigo.
A encenação acerta ao compreender que solidão não é ausência. É acúmulo. Um quarto pequeno cheio demais de lembranças. O “sozinho” do título não é melancólico, é desconfortável. Não se trata de abandono, mas de excesso de memória, de desejo, de idealização. Shakespeare vira um eco insistente, desses que você acredita ter superado, mas que reaparecem sem aviso no meio da madrugada.
A música ao vivo e as canções entram como respiração. Não estão ali para embelezar a cena. Estão para cutucar. O espetáculo deixa claro que não basta assistir. É preciso sentir, mesmo quando isso incomoda.
Politicamente, a peça é mais inteligente do que panfletária. Não levanta bandeiras. Mostra o prédio fechado. E isso diz tudo. O amor em jogo não é apenas o de Verona, mas o amor pelo teatro como espaço de encontro, liberdade e resistência. Um amor teimoso, quase imprudente, desses que continuam mesmo quando todo o entorno aconselha desistência. Fazer teatro aqui não é metáfora. É insistência. É desobediência cotidiana.
No fim, Sozinho com Romeu e Julieta não quer saber se Shakespeare ainda é relevante. A pergunta é outra, bem mais incômoda: o que fazemos com aquilo que amamos quando nos tiram o espaço para amar?
A resposta da Ave Lola não vem em forma de discurso. Vem em cena, em risco e em jogo. Como o teatro deveria ser. Frágil, necessário e perigosamente vivo.
Mezanino do Sesc Copacabana
R. Domingos Ferreira, 160, Copacabana / RJ.
HORÁRIOS: quinta a domingo às 20h30
INGRESSOS: R$30, R$15 (meia), R$10 (credencial plena) e gratuito (PCG) CAPACIDADE: 100 espectadores
DURAÇÃO: 1h40
GÊNERO: drama
CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA: 14 anos
ACESSIBILIDADE: sim
TEMPORADA: até 08 de fevereiro








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