A vitória do Coyote: persistir quando até o filme é condenado ao fracasso
- circuitogeral

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Por Paulo Sales
Ler Coyote vs. Acme pela perspectiva de Dave Green revela um filme que procura atualizar o personagem sem transformá-lo em símbolo excessivamente elaborado. Seu cinema privilegia personagens, infância, amizade e aventura, tratando a nostalgia com responsabilidade: revisitar figuras conhecidas sem transformar o passado em mera decoração nem exigir que o público adulto volte a ser criança.
A premissa, inspirada em uma piada de Ian Frazier publicada no The New Yorker em 1990, transforma os fracassos recorrentes do Coyote com produtos da Acme em uma questão judicial. O que antes parecia apenas uma sequência de acidentes passa a envolver responsabilidade, permitindo ao personagem questionar se a empresa que lhe vende os produtos também deve responder por suas consequências.
Green encontra nessa situação algo além da piada. Seu Coyote é definido pelo desejo, pelo fracasso e, sobretudo, pela persistência. A narrativa desloca o foco da repetição das gags para aquilo que pode existir depois do fracasso: a tentativa de responsabilizar uma instituição maior que o indivíduo. A Acme funciona como instrumento de sátira, mas não precisa representar todo o capitalismo ou alguma teoria econômica. O interesse central está no conflito entre um indivíduo vulnerável e uma corporação poderosa.
Essa perspectiva também se relaciona a uma preocupação recorrente de Green: personagens pequenos diante de circunstâncias maiores que seus recursos. Como em seus outros filmes, a aventura está ligada à descoberta de como agir diante de um mundo que não pode ser plenamente controlado. No caso do Coyote, isso significa transformar sua insistência tradicional em uma busca por reconhecimento, reparação e justiça.

O desafio está em atualizar um personagem cuja força original reside justamente na ausência de explicações. O Coyote clássico deseja, planeja, fracassa e continua, sem que seja necessário conhecer suas motivações. Ao atribuir consequências, sofrimento e interioridade a essa persistência, o filme ganha dimensão emocional, mas corre o risco de reduzir parte da violência absurda e da simplicidade dos desenhos de Chuck Jones.
A produção enfrenta ainda uma contradição entre preservação e transformação. Para manter o Coyote vivo, é preciso permitir que ele mude; para respeitar a nostalgia, é necessário não ficar prisioneiro dela. Assim, sua persistência deixa de ser apenas uma característica cômica e passa a constituir sua identidade. Ele não vence necessariamente, mas conserva a dignidade de continuar tentando.
Essa leitura ganhou uma dimensão inesperada pela própria trajetória do filme. Filmado em 2022, Coyote vs. Acme foi arquivado pela Warner Bros. em uma estratégia de redução de custos e benefícios fiscais, antes de ser recuperado após reação pública, negociações e aquisição pela Ketchup Entertainment. A situação reproduziu, de maneira involuntária, o conflito central da obra: um personagem que enfrenta uma corporação e um filme que, considerado dispensável por uma corporação, precisou persistir para chegar ao público.
A coincidência não significa que Green tenha previsto esse destino, mas altera inevitavelmente a recepção do longa. O Coyote deixa de representar apenas alguém que insiste contra todas as evidências e passa a carregar, simbolicamente, a própria história de resistência do filme.
Coyote vs. Acme é menos uma alegoria sobre grandes instituições do que uma tentativa de conceder interioridade a um personagem historicamente condenado a fracassar em público. Green preserva sua essência ao reconhecer nele desejo, vulnerabilidade, curiosidade e persistência. A principal tensão do filme está justamente nisso: para preservar o personagem, é necessário transformá-lo; para respeitar a nostalgia, é preciso contrariá-la. Depois de tantas quedas, sua vitória mais significativa não é derrotar a Acme, mas simplesmente conseguir chegar ao público.
A vitória do Coyote: persistir quando até o filme é condenado ao fracasso




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