"Ato Noturno", ou quando o desejo também faz hora extra
- circuitogeral

- há 2 dias
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O turno extra de um sistema que nunca desliga
Ato Noturno, ou quando o desejo também faz hora extra
Se Ato Noturno fosse uma pessoa, seria aquele sujeito que passa o dia defendendo a ordem, a reputação e o “vamos manter a compostura”, mas à noite busca situações-limite como quem tenta respirar fora do manual de conduta. Sob essa perspectiva, o filme de Filipe Matzembacher e Marcio Reolon deixa de ser apenas uma investigação sobre desejo e se transforma em um retrato incômodo do sujeito contemporâneo, alguém que precisa administrar emoções, imagem pública e ambições dentro de um sistema que exige desempenho constante e coerência absoluta.
Nesse contexto, a noite não aparece como espaço de libertação, mas como intervalo funcional. É o turno extra de um sistema que nunca desliga. Os personagens não se descobrem, eles se compensam. Durante o dia, Matias disputa papéis em um mercado que oferece reconhecimento apenas enquanto ele se mantém desejável e competitivo. Rafael, inserido no jogo político, vive sob a lógica permanente do controle, onde qualquer fissura pode se transformar em escândalo. À noite, o que surge não é ruptura, mas alívio momentâneo. O sexo em espaços públicos funciona menos como gesto político e mais como válvula de escape em um mundo onde terapia é luxo e transformação estrutural exige mais do que impulso.
O desejo apresentado pelo filme se afasta da ideia de prazer pleno. Ele se aproxima de um esgotamento afetivo. Trata-se de uma tentativa de sentir algo que não seja ansiedade, medo de fracassar ou pânico de se tornar irrelevante. O risco excita não por seu potencial transgressor, mas porque ainda escapa, ao menos parcialmente, à lógica da mensuração e do controle. O tesão existe, mas vem acompanhado de cálculo, autoconsciência e medo, o que revela sujeitos incapazes de se entregar sem administrar as consequências.
Ato Noturno recusa qualquer lição simples. Não há aqui um embate direto entre repressão conservadora e liberdade sexual emancipadora. O filme sugere algo mais desconfortável: o puritanismo não é apenas o inimigo do desejo, mas um de seus principais motores. Sem moral rígida, sem risco de exposição e sem a ameaça de ruína da imagem pública, o desejo perde parte de sua intensidade. O prazer depende do perigo que o cerca. É um erotismo que se alimenta da culpa e da vigilância, mais adaptado ao sistema do que disposto a enfrentá-lo.
Nesse cenário, Porto Alegre deixa de ser apenas pano de fundo e assume um papel estrutural. A cidade não age como personagem acolhedora, mas como instância reguladora. Seus parques, praças, avenidas e edifícios institucionais operam como símbolos de ordem, visibilidade e disciplina. Quando o desejo invade esses espaços, não há transformação do urbano, apenas pequenas infrações toleradas. A cidade permanece intacta, funcionando normalmente no dia seguinte, como se absorvesse essas tensões sem jamais se alterar.
Os personagens revelam uma busca constante por validação. Matias deseja ser desejado porque isso confirma sua existência em um sistema que mede valor por visibilidade. Rafael, por sua vez, precisa perder o controle apenas o suficiente para continuar acreditando que ainda é humano, mas nunca a ponto de comprometer sua posição de poder. Ambos flertam com o risco, mas evitam o confronto real. Não enfrentam o sistema, apenas negociam com ele, sempre atentos à própria trajetória profissional.
Essa dinâmica torna o filme ainda mais ácido. Ato Noturno expõe como o desejo queer pode ser perfeitamente assimilado pela lógica neoliberal quando se mantém individualizado, secreto e desvinculado de qualquer projeto coletivo. Não há comunidade, não há transformação social, apenas experiências intensas que se esgotam em si mesmas. O risco é vivido no âmbito privado, enquanto as estruturas de poder seguem inalteradas e confortavelmente preservadas.
Quando a noite termina, nada de essencial se modifica. O dia retorna com seus códigos, figurinos e discursos. A clareza momentânea não produz ação, apenas ressaca. O sistema continua operando, agradecido, enquanto os personagens seguem confundindo risco pessoal com enfrentamento político.
Ato Noturno parece sugerir, com ironia calculada, que o problema não é o desejo em si. O problema é quando ele se torna apenas mais uma engrenagem, uma distração sofisticada que permite que tudo continue exatamente como está. Um filme menos sobre transgressão e mais sobre como até o perigo pode ser administrado. E isso talvez seja mais perturbador do que qualquer escândalo.






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