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Presenças na Amazônia: a estética do pertencimento e o desejo de fusão

"Ok… e agora, o que eu faço com tudo isso?"

Presenças na Amazônia

Presenças na Amazônia: a estética do pertencimento e o desejo de fusão


Presenças na Amazônia não se apresenta como exposição; ela chega pedindo que você tire o sapato, respire fundo e esqueça, por alguns minutos, que paga boleto. Desde o primeiro estímulo sensorial, o cheiro de terra molhada, o som de um passarinho feliz (que claramente não mora no Rio) e a luz que simula o ciclo do dia, o visitante é conduzido a um estado regressivo, quase uterino. A sensação é simples e eficaz: relaxa, vem, aqui não tem Wi-Fi nem prazo.


Nesse ambiente, a Amazônia deixa de ser paisagem e passa a funcionar como arquétipo de origem. Não se trata de ver a floresta, mas de sentir-se acolhido por ela, como quem finalmente encontra um lugar onde ninguém pergunta “e aí, você faz o quê?”. Aqui, você não faz nada. Você é. Ou, pelo menos, desempenha esse papel com bastante convicção.


A exposição opera numa zona delicada ao tocar carências profundas do sujeito urbano contemporâneo: o desejo de pertencimento, a busca por sentido, a necessidade de reconexão. Tudo isso em alguém cansado de telas, notificações e discursos sobre o futuro que, no fundo, sempre parecem culpa sua. A floresta surge então como promessa simbólica de redenção. Você entra meio cínico e sai pensando, com certo desconforto, que talvez o problema seja você, e não a Amazônia.


Não por acaso, a curadoria organiza o percurso em eixos com nomes que soam como títulos de retiro espiritual: A Floresta, Presenças e Luz Mágica. A experiência se aproxima de uma jornada do herói, só que, em vez de espada, você recebe um cheiro de terra e uma reflexão existencial gratuita. O visitante começa como observador e termina como parte de uma totalidade maior, ou, no mínimo, como alguém que agora usa a palavra “bioma” com propriedade.


Nesse processo, o todo vem antes das partes. As imagens não pedem decifração; pedem entrega. A luz é difusa, as narrativas permanecem abertas e o diário visual aparece fragmentado, criando um espaço de silêncio que o visitante preenche com seus afetos, suas culpas ecológicas e aquele pensamento insistente: “eu devia fazer mais pela Amazônia… depois do café”.


O sentido, portanto, não está apenas na imagem, mas na relação que se estabelece com ela. E, se essa relação incluir uma súbita vontade de abraçar uma árvore, tudo bem. É um efeito colateral conhecido e costuma passar.


É nesse ponto que a presença de Bob Wolfenson se torna decisiva. Ao abdicar do controle absoluto da luz e da cena, o fotógrafo constrói uma estética da vulnerabilidade. Não se coloca como quem domina a Amazônia, mas como alguém que foi atravessado por ela, postura mais elegante e bem menos problemática. O efeito é imediato: o espectador baixa a guarda, troca a crítica pela empatia e se permite pensar “ok, posso me emocionar sem parecer trouxa”.


Ainda assim, nem tudo se dissolve em neblina poética. Há uma tensão silenciosa que torna a experiência mais complexa. Enquanto a floresta é apresentada como espaço de harmonia, permanência e respiro, o discurso institucional da sustentabilidade surge em segundo plano, quase como um sussurro tranquilizador: “calma, a gente está cuidando”. O resultado é ambíguo. Você sai tocado, comovido e também levemente aliviado, como quem fez terapia e ainda ganhou um copinho d’água no final.


Talvez aí resida o maior mérito da exposição: mostrar como a estética pode mediar angústia e esperança sem prometer salvação. A Amazônia se transforma em um espelho onde o sujeito contemporâneo tenta, em silêncio, reorganizar sua crise de sentido. Falha, claro, mas falha de maneira bonita, e isso já conta pontos.


Presenças na Amazônia não captura pela força. Seduz com delicadeza. Não exige adesão; sugere pertencimento. E é justamente nesse gesto suave que moram sua potência e sua responsabilidade. Porque sentir é fundamental, mas não basta. A verdadeira presença começa quando o encantamento não encerra o pensamento, e sim acompanha o visitante para fora da sala, ecoando na pergunta inevitável:


ok… e agora, o que eu faço com tudo isso?


Depois, claro, vai-se tomar um café. Porque ninguém é de ferro.


Museu do Amanhã

Exposição “Presenças na Amazônia: um diário visual de Bob Wolfenson”

Praça Mauá, 1, Centro, Rio de Janeiro

Data: até 10 de fevereiro

Todos os dias, exceto quarta-feira, das 10h às 18h (última entrada às 17h)

Ingressos: a partir de R$ 20 (meia) com acesso a todo o Museu


museu

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