Banda PENSE “Tudo Que Temos de Lembrar”: Entre catarse, amadurecimento e excessos retóricos
- circuitogeral

- há 1 dia
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Faltam recortes mais específicos, imagens menos genéricas, conflitos menos abstratos

Banda PENSE “Tudo Que Temos de Lembrar”: Entre catarse, amadurecimento e excessos retóricos
A PENSE retorna depois de seis anos com “Tudo Que Temos de Lembrar”. Seis anos. Tempo suficiente para fazer terapia, mudar de carreira duas vezes e descobrir intolerância à lactose. Mas não. A escolha foi “renascer”.
“Renascer” é sempre um verbo delicado. Costuma vir acompanhado de “fagulha”, “chama”, “escuridão” e outras metáforas inflamáveis. Falta pouco para surgir um “você é luz” sussurrado ao fundo, embalado por um violão em ré menor. O texto de apresentação aposta exatamente nesse campo simbólico: muita combustão interna, pouca concretude. Fala-se em ignição, mas raramente se diz o que, de fato, está pegando fogo.
A banda assume a própria produção. Isso pode significar autonomia estética; também pode resultar em excesso de autoconsciência. Produzir a si mesmo exige distanciamento crítico, algo raro quando o disco é apresentado como síntese emocional de uma era. Gabriel Zander entra para mixar e masterizar e cumpre a função técnica com competência, mas mixagem não corrige conceito. Ela organiza o som; não substitui direção artística.
Os temas do álbum são amplos: família, amizade, amor, saúde mental, questões sociopolíticas. É um cardápio contemporâneo. O problema não está nos assuntos, mas na abordagem. Quando tudo é importante, nada se destaca. Faltam recortes mais específicos, imagens menos genéricas, conflitos menos abstratos. “Amadurecimento” aparece como selo de qualidade, mas maturidade artística não é falar sério; é dizer algo que sobreviva depois que o tom solene passa.
Ainda assim, é preciso reconhecer: manter relevância no hardcore nacional por anos não é trivial. A PENSE tem público, identidade e consistência. Isso é capital simbólico real. Justamente por isso, talvez não precisasse recorrer a tanta pirotecnia verbal para sustentar o retorno. A trajetória já fala por si.
No fim, “Tudo Que Temos de Lembrar” soa menos como manifesto e mais como catarse coletiva amplificada por distorção. E não há problema algum nisso. O mundo precisa de catarse.
Só não precisa ser anunciado como tratado filosófico.
E, se a ideia é acender uma chama na escuridão, que ela ilumine algo concreto não apenas a própria metáfora.



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