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Infinito em Mim de Kika Bastos - Manual prático para chamar relação tóxica de autoconhecimento

Infinito em Mim

Infinito em Mim de Kika Bastos

Manual prático para chamar relação tóxica de autoconhecimento


Infinito em Mim é um livro sobre autoconhecimento que parte de uma premissa conhecida. Pri, aos 40 anos, acredita que finalmente colocou a vida em ordem. Saiu de um relacionamento ruim, conseguiu um novo emprego e concluiu que agora sabe quem é. Essa convicção dura pouco.


Basta surgir uma paixão intensa para que toda a estabilidade recém-descoberta seja colocada em suspensão, como se maturidade fosse um estado provisório que expira ao primeiro olhar significativo.


O romance apresenta essa paixão como inevitável e transformadora, mas o que se vê é um padrão emocional reciclado com linguagem mais sofisticada. A relação é confusa, dolorosa e desigual, mas recebe o selo de experiência necessária. O sofrimento não aparece como um alerta, e sim como prova de profundidade. Quanto mais desestabiliza, mais sentido parece ter.


O homem misterioso cumpre uma função bastante clara. Ele não se explica, não se compromete e oferece pouco em termos concretos, mas se torna o centro da experiência subjetiva de Pri. Cabe a ela interpretar silêncios, justificar ausências e transformar frustração em aprendizado. A relação não se constrói a dois. Ela é sustentada quase inteiramente pelo esforço emocional de uma das partes, que ainda se sente grata pela oportunidade de crescimento pessoal.


Do ponto de vista psicológico, o livro sugere que a dor é etapa obrigatória da evolução. Questionar a relação soa como imaturidade. Permanecer nela, mesmo quando custa caro, vira sinal de consciência elevada. O conflito não é enfrentado, é internalizado. Em vez de perguntar se algo está errado, a narrativa convida a perguntar o que ainda falta aprender com aquilo.


Socialmente, Infinito em Mim reforça um modelo bastante familiar. A mulher madura é independente, forte e bem-sucedida, mas continua responsável por compreender tudo, acolher tudo e transformar qualquer desequilíbrio em reflexão íntima. O autoconhecimento aparece menos como libertação e mais como adaptação elegante a relações que não se sustentariam sem esse esforço constante.


No plano político, o livro aposta em uma solução confortável. Problemas relacionais complexos são tratados como questões individuais. Não se fala em poder, em desigualdade emocional ou em responsabilidade compartilhada. A resposta oferecida é sempre interior. Respire, aceite, mergulhe em si. Nada precisa mudar fora, desde que você consiga elaborar bem por dentro.


No final, Infinito em Mim se apresenta como um convite à inteireza, mas evita perguntas incômodas. O leitor recebe espelhos, pausas e silêncio, desde que não os use para questionar por que certas histórias se repetem ou por que a iluminação emocional quase sempre exige que alguém aguente mais do que o razoável. O infinito pode até estar dentro de cada um, mas o livro parece confiar demais nessa ideia para justificar relações que talvez pedissem menos introspecção e mais limite.


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