Meu Remédio: Mouhamed Harfouch transforma lembranças pessoais em uma narrativa universal
- circuitogeral

- 17 de jul.
- 5 min de leitura
Após temporadas no Rio de Janeiro, São Paulo e interior paulista, Meu Remédio retorna à capital em nova apresentação, ampliando uma trajetória marcada pela recepção positiva do público e da crítica. Reconhecimentos como o Prêmio FITA de Melhor Dramaturgia e o Prêmio Arcanjo de Teatro Solo confirmam uma qualidade percebida desde a relação direta estabelecida com os espectadores.

SERVIÇO:
Local: Teatro Multiplan - MorumbiShopping
Avenida Roque Petroni Júnior, 1089 - Piso G2 (acesso pelas escadas rolantes em frente à Zara e Renner)
Estreia: 25 de julho de 2026
Temporada: 25 de julho a 05 de setembro
Sessões:
Valor: Entre R$60 e R$120
Duração: 75 minutos
Classificação: 10 anos
O espetáculo não segue o caminho de uma autobiografia convencional. Harfouch utiliza a própria história como matéria cênica, mas não para confiná-la a um relato pessoal. Quanto mais singular se torna sua experiência, mais ela encontra pontos de contato com quem acompanha a montagem. O ponto de partida é um elemento aparentemente comum, o nome, mas a peça demonstra que um nome jamais representa apenas uma combinação de letras. Ele reúne origem, expectativas, lembranças familiares, vínculos afetivos e julgamentos que muitas vezes chegam antes da própria pessoa.
A partir dessa reflexão, Meu Remédio amplia seu alcance para investigar como nenhuma identidade se constrói a partir de uma única camada. Cada indivíduo reúne heranças, conflitos, afetos, contradições e histórias que permanecem em movimento. A peça observa como somos atravessados pelo que recebemos de nossos antepassados e pelo modo como escolhemos transformar ou preservar esse legado.
Um dos maiores méritos do espetáculo está na maneira como aborda temas complexos sem convertê-los em uma explicação didática ou em uma palestra disfarçada de teatro. O humor ocupa um papel essencial nessa construção. Ele não reduz a gravidade das experiências narradas, mas permite enxergar novas dimensões em situações marcadas pela dor, pelo constrangimento e pela incompreensão. O riso nasce do reconhecimento de absurdos cotidianos, das contradições humanas e daqueles momentos em que uma experiência difícil também revela sua fragilidade.
A peça se diferencia pela forma como apresenta episódios de preconceito e desconforto sem transformar a narrativa em um percurso dominado pelo sofrimento. Essas experiências permanecem presentes, mas convivem com música, ironia, afeto e uma capacidade madura de revisitar o passado sem permitir que ele controle inteiramente o presente. Harfouch reconhece as marcas deixadas por determinadas situações, mas não aceita que elas sejam suficientes para definir uma existência inteira.
Como intérprete, Harfouch apresenta uma presença cênica de grande intensidade. Ele alterna momentos em que interpreta personagens, dialoga diretamente com a plateia, canta, toca instrumentos e recupera memórias familiares com naturalidade. Sua técnica é evidente, mas nunca se transforma em exibição de habilidade. Cada recurso empregado encontra uma função dentro da narrativa e contribui para aproximar o público daquela experiência.
A força de sua atuação está na ausência de esforço aparente. As mudanças de voz, humor e estado emocional acontecem de maneira orgânica, quase imperceptível. O público acompanha as transformações sem perceber exatamente quando uma lembrança se converte em personagem ou quando uma emoção pessoal se torna representação. Essa liberdade demonstra um domínio artístico que permite ao ator abandonar a necessidade de afirmar sua capacidade técnica para concentrar-se na comunicação da experiência.
A dramaturgia segue uma lógica semelhante. Em vez de organizar os acontecimentos por uma sequência cronológica rígida, aproxima-se do funcionamento da memória, que raramente respeita uma ordem linear. Uma lembrança desperta outra, um objeto conduz a uma história esquecida, uma música abre uma passagem para outro período da vida. O risco dessa estrutura seria produzir uma sucessão dispersa de episódios pessoais, mas a montagem transforma essa aparente desordem em uma composição coerente.
A direção de João Fonseca contribui para esse equilíbrio. Sua condução é marcada pela discrição e pela confiança no material apresentado. Ele não disputa espaço com a narrativa, mas cria condições para que ela se desenvolva. O controle dos ritmos, das pausas e das mudanças de intensidade permite que cada lembrança encontre o momento adequado para produzir impacto.
A cenografia de Nello Marrese segue essa mesma compreensão. O baú presente em cena poderia funcionar apenas como uma imagem conhecida da memória, mas adquire uma dimensão mais profunda. Ele não apenas guarda objetos; ele desperta histórias. Cada elemento retirado dali estabelece uma passagem entre diferentes tempos, fazendo com que lembranças privadas ganhem presença diante do público.
A iluminação de Dani Sanchez participa ativamente da construção emocional do espetáculo. Sem assumir protagonismo, modifica atmosferas, acompanha movimentos internos e cria transições delicadas entre humor, reflexão e emoção. Os figurinos de Ney Madeira e Dani Vidal seguem essa mesma inteligência ao evitar símbolos evidentes de ancestralidade e acompanhar as diversas camadas do protagonista.
Uma das qualidades mais expressivas de Meu Remédio está na maneira como evita transformar identidade em um discurso pronto. A montagem não oferece respostas definitivas sobre diferenças culturais ou pertencimento. Ela acompanha como essas questões atravessam uma vida concreta, formada por ambiguidades, escolhas e experiências acumuladas.
Quando Harfouch aborda a dificuldade de explicar seu próprio nome ou lidar com interpretações construídas por outras pessoas antes mesmo de ser conhecido, a questão ultrapassa o campo individual. A situação representa todas as vezes em que alguém precisou justificar sua origem, sua presença ou sua identidade antes de simplesmente ser reconhecido como pessoa.
O espetáculo também compreende que o preconceito nem sempre se manifesta em acontecimentos grandiosos e explícitos. Muitas vezes aparece em pequenas situações repetidas ao longo dos anos: perguntas insistentes, comentários aparentemente inofensivos, olhares, piadas ou conclusões precipitadas. Considerados isoladamente, esses episódios podem parecer insignificantes; acumulados durante uma vida, formam uma experiência profunda de exclusão e estranhamento.
É nesse ponto que o humor revela sua força. Ele não suaviza essas situações, mas expõe sua incoerência. A risada surge quando o público percebe o absurdo escondido em determinadas atitudes sociais e encontra uma nova maneira de observá-las.
A ancestralidade também recebe um tratamento delicado. As origens familiares de Harfouch, incluindo referências sírias e portuguesas, aparecem como elementos fundamentais de sua formação, mas não funcionam como uma explicação definitiva sobre sua identidade. A peça compreende que uma pessoa é construída tanto pelas heranças recebidas quanto pelas escolhas feitas diante delas.
Apesar de sua força, o espetáculo apresenta momentos em que certas lembranças permanecem mais tempo do que a narrativa exige. Algumas histórias parecem carregar uma importância maior para o próprio artista e poderiam alcançar ainda mais potência com uma síntese mais rigorosa. Também existem pequenas oscilações nas transições entre diferentes períodos da memória, criando breves interrupções no fluxo da montagem.
Essas limitações, porém, não comprometem o resultado geral. A estrutura permanece consistente e a experiência particular de Harfouch gradualmente alcança uma dimensão mais ampla. Mesmo para espectadores que não compartilham das mesmas referências culturais, a peça encontra caminhos para discutir questões fundamentais: como somos percebidos pelos outros? Quanto da nossa identidade escolhemos conscientemente? Quanto recebemos antes mesmo de compreender?
A principal conquista da montagem está na capacidade de transformar uma história individual em uma experiência compartilhada sem simplificá-la. O espetáculo combina reflexão, emoção e humor com equilíbrio, criando uma conversa que permanece mesmo depois que as luzes do palco se apagam.
O próprio título revela seu significado ao longo da peça. Meu Remédio não oferece soluções definitivas nem promete apagar conflitos, preconceitos ou marcas do passado. Seu interesse está em mostrar que revisitar a própria história pode modificar a maneira como convivemos com aquilo que carregamos.
A memória permanece como parte da nossa formação. As experiências continuam integradas àquilo que somos, mas a relação que estabelecemos com elas pode se transformar. Aquilo que antes ocupava todo o espaço da narrativa pessoal pode encontrar lugar dentro de uma história mais ampla.
Meu Remédio fala sobre nomes, mas, sobretudo, sobre pessoas tentando compreender seu lugar no mundo. Fala sobre origem, mas investiga pertencimento. Fala sobre passado, mas mantém a atenção voltada para o presente. Sua realização mais significativa está em transformar uma experiência profundamente particular em uma conversa coletiva, permitindo que cada espectador encontre, de alguma maneira, fragmentos da própria história.
Meu Remédio: Mouhamed Harfouch transforma lembranças pessoais em uma narrativa universal




Comentários