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Se Eu Fosse Você 3: O Cinema Brasileiro em Estado de Preguiça Criativa

há 20 horas
3 min de leitura

Existe uma diferença entre fazer uma comédia popular e imaginar que o público precisa de uma aula introdutória sobre casamento. Se Eu Fosse Você 3, dirigido por Anita Barbosa, com supervisão artística de Daniel Filho, parece confundir essas duas coisas. A troca de corpos continua sendo uma premissa promissora, capaz de transformar a falta de empatia em uma experiência concreta. O problema começa quando o filme parece acreditar que basta colocar homens e mulheres em situações constrangedoras para produzir humor. A humanidade levou séculos para desenvolver a instituição do casamento e, aparentemente, algumas décadas para esgotar todas as piadas sobre quem deixa a toalha molhada na cama.


O uso de clichês não constitui, por si só, um defeito. A comédia trabalha com comportamentos reconhecíveis, expectativas frustradas e pequenas misérias cotidianas. A dificuldade aparece quando o roteiro apresenta uma observação banal como se tivesse acabado de desvendar a condição humana. O marido não escuta, a esposa reclama, os dois discutem. A plateia reconhece a situação, ri por identificação e aguarda alguma novidade que justifique a existência daquela cena. A novidade demora. Em determinados momentos, parece ter ficado presa no trânsito.


A comédia de relacionamentos, porém, costuma preferir uma distribuição mais confortável de responsabilidades. Cada personagem recebe um defeito facilmente identificável, o conflito se organiza em torno dessas características e o espectador escolhe seu representante na disputa. O marido é imaturo, a esposa é controladora, o namorado é egoísta, a namorada é exigente. Todos possuem uma explicação pronta para o próprio comportamento e uma indignação inesgotável diante do comportamento alheio. A vida a dois vira uma competição em que ninguém sabe exatamente qual é o prêmio, mas todos estão dispostos a destruir o adversário para conquistá-lo.


Se a experiência se limita a confirmar que homens e mulheres pensam de maneira diferente, a premissa termina reduzida a uma brincadeira antiga com figurino novo. A chamada guerra dos sexos já produziu material suficiente para abastecer décadas de programas de televisão, conversas de bar e discussões digitais. Repeti-la sem acrescentar complexidade equivale a apresentar uma nova teoria sobre a roda e demonstrá-la empurrando um carrinho de supermercado.


Se Eu Fosse Você 3

O público conhece as dificuldades da convivência. Não precisa de uma comédia para descobrir que casais discutem, que o ciúme provoca conflitos ou que a comunicação é importante para a manutenção de uma relação. O interesse está em compreender por que pessoas inteligentes agem de maneira tão estúpida quando se sentem contrariadas. Está na distância entre a imagem que alguém constrói de si mesmo e a experiência que proporciona aos outros. A pessoa que se define como sincera pode ser apenas grosseira. Quem se orgulha da própria organização pode estar exercendo um controle insuportável. Quem afirma detestar conflitos pode passar dias praticando o silêncio punitivo, uma modalidade de comunicação que exige muito esforço para transmitir absolutamente nada.


O desafio de Se Eu Fosse Você 3 está justamente na distância entre explorar uma premissa conhecida e encontrar novas possibilidades dentro dela. A fórmula oferece condições para uma comédia sobre egoísmo, vaidade, ressentimento e a necessidade quase infantil de vencer discussões. Esses elementos continuam presentes nos relacionamentos porque não dependem de uma época específica. Dependem de pessoas que desejam ser compreendidas, mas demonstram pouca disposição para compreender alguém quando isso ameaça suas convicções.


A diferença entre uma comédia apenas funcional e uma obra verdadeiramente afiada está na disposição de contrariar o público. É fácil fazer alguém rir de um personagem arrogante quando a arrogância pertence exclusivamente a ele. Mais difícil é revelar que a plateia compartilha do mesmo defeito, apenas com justificativas melhores e um vocabulário emocional mais sofisticado. O riso ganha profundidade quando deixa de ser uma sentença contra o outro e se transforma numa breve suspeita sobre nós mesmos.


Uma comédia sobre relacionamentos pode continuar divertida sem revolucionar o gênero. O que ela não pode fazer indefinidamente é confundir familiaridade com profundidade, repetição com reconhecimento e constrangimento com inteligência.


Se Eu Fosse Você 3: O Cinema Brasileiro em Estado de Preguiça Criativa

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